Clima interno no STF é ruim, e as divergências entre os ministros só se ampliam
Escrito por
Egídio Serpaegidio.serpa@svm.com.br
18 de Fevereiro de 2026 – 07:50
(Atualizado às 07:54)
Legenda: O escândalo do Banco Master, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é o maior da história do país
Foto: Divulgação
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Hoje, quarta-feira pós carnaval, o mundo cristão relê o que diz a Bíblia no livro de Gênesis, Capítulo 3, Versículo 19: “Comerás o teu pão do suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado, porque és pó, e pó te hás de tornar”. Mas no mundo da política, de cuja boa performance depende o mundo da economia, o que se apresenta à reflexão dos brasileiros, neste momento, são as cinzas do até então imaculado Supremo Tribunal Federal (STF), exposto agora ao inimaginável envolvimento de alguns de seus ministros no maior escândalo financeiro da história do Brasil, como disse o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Nas últimas 24 horas, a Polícia Federal e a Receita Federal, os dois principais centros de excelência do serviço público federal, atuaram, a mando do ministro Alexandre de Moraes, e identificaram os quatro servidores responsáveis pela quebra do sigilo fiscal de ministros do STF e de seus familiares. Na perna de cada um deles, foi instalada uma tornozeleira eletrônica com sensores que indicam sua exata localização.
Desse quarteto, preso domiciliarmente e proibido de ausentar-se da área geográfica de sua comarca, foram sequestrados os passaportes. Um dos quatro confessou que fez uma “besteira” ao acessar os dados fiscais do parente de um dos ministros do STF.
A Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasl (Unafisco) distribuiu nota na qual diz, entre outras coisas, que os auditores “não podem, mais uma vez, ser transformados em bodes expiatórios em meio a crises institucionais ou disputas que não lhe dizem respeito”. Faz sentido.
Tudo o que hoje se passa, e o brasileiro medianamente informado já o sabe, faz parte do escândalo do Banco Master, cujas fraudulentas operações lesaram 1,6 milhão de pessoas físicas e jurídicas, causando um prejuízo superior a R$ 60 bilhões, incluídos os quase R$ 50 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Fundado pelo até então desconhecido empresário Daniel Vorcaro, o Master teve origem na privatização da Cesta do Povo, um programa social do governo da Bahia, quando era governador o atual ministro da Casa Civil, Rui Costa. Vorcaro e seu banco tomaram posse do crédito consignado dos servidores do governo baiano, cobrando taxas excessivas.
Como que copiando o financista e pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein, o brasileiro Vorcaro criou uma rede de influência que envolveu de A a Z nas áreas da política e do judiciário. Seu banco foi crescendo à base de maracutais, entre as quais, e provavelmente a principal, a criação de fundos de investimento, que, entre outros clientes, incluiu a família do ministro Dias Toffoli, do STF, que comprou parte das ações do luxuoso Resort Tayaiá, no Paraná.
Homem inteligente, perspicaz, Daniel Vorcaro, prevenindo-se contra turbulências, incluindo a da severa fiscalização do Banco Central, tratou de blindar-se juridicamente. Para isto, contratou os serviços do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, dirigido pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O contrato tem validade de 36 meses e seu valor é de R$ 3,6 milhões por mês.
A Procuradoria Geral da República (PGR) já disse que esse contrato, do ponto de vista jurídico, é legal. Realmente, o contrato é 100% legal. Mas do ponto de vista ético e moral, não o é.
No STF, desapareceu a tradicional amistosidade que marcava a relação pessoal dos seus ministros, e tudo porque a imagem da Suprema Corte do país desceu ao fundo do poço. Para a opinião pública, o STF era o endereço dos acima de quaisquer suspeitas, dos togados pela seriedade, pela competência profissional, pela vida pessoal ilibada, pelo notório saber jurídico. O que sentenciava o STF era, para os brasileiros, a prova provada da Justiça. Agora, não é mais.
A ministra Carmem Lúcia, que só fala nos autos, recusa entrevistas e se mostra decepcionada com tudo o que se passa no seu tribunal, disse aos seus pares que “todo motorista de táxi que eu pego fala mal do Supremo; a população está contra o Supremo”.
O escândalo do Banco Master tem, como esta coluna já o disse, alto poder explosivo. O celular de Daniel Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal na Operação Compliance no dia 18 de novembro do ano passado, mesma data em que a sua arapuca foi liquidada pelo Banco Central, é um arsenal atômico capaz de derrubar a República, tantas são as personalidades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário que nele aparecem.
A mídia não tem descansado na cobertura desse escândalo, mas segue desconfiando de que está em curso uma operação abafa, que imitaria a Operação Lava Jato, anulada sob o argumento de que todo o processo deveria ter começado não em Curitiba, mas em Brasília. A tal da filigrana jurídica que poderá ser usada para dar o mesmo fim ao caso do Banco Master e do seu dono, que hoje só é poderoso pelo que sabe, pelo que conhece, pelo que fez, pelo que pagou.
Os próximos dias prometem mais emoção. Este é um ano eleitoral, e o escândalo do Banco Master tem potencial para influir na eleição de deputados, senadores, governadores e até do presidente da República.











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