Jovens são maioria entre os 25 casos confirmados neste ano.

Uma doença grave, transmissível e recorrente no Ceará já levou oito pessoas a óbito em menos de dois meses de 2026. Até 20 de fevereiro, o Estado confirmou 25 casos e oito mortes por meningite, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) – uma taxa de mortalidade de 32%.
A maioria das pessoas entre os casos confirmados tem entre 20 e 29 anos, faixa que concentra dez das infecções. Os bebês menores de um ano aparecem em seguida, com quatro confirmações, de acordo com a plataforma de dados da Sesa, o Integra SUS.
A faixa etária dos cearenses que morreram de meningite não foi informada. Em nota, a Sesa ressalta que “se tratam de dados preliminares, sujeitos a alterações conforme a consolidação da base e a conclusão das investigações epidemiológicas em andamento”.
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Em número, o cenário de mortes por meningite em janeiro e fevereiro de 2026 é similar ao ano passado, quando houve seis óbitos pela doença. A diferença, contudo, está no volume de casos: em 2025, os dois meses tiveram 63 confirmações no período; neste ano, são apenas 25.
A meningite é uma inflamação das meninges, que são as membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. Ela é causada principalmente por infecções virais ou bacterianas, mas pode ter como agentes fungos e até parasitas.
No ano passado, a forma mais comum entre os casos confirmados em janeiro e fevereiro foi a viral, com 31 infecções. Metade das mortes no mesmo período, porém, foram pela forma bacteriana da doença – a meningite pneumocócica –, segundo dados da Sesa.
Casos confirmados
- Janeiro e fevereiro de 2025: 63;
- Janeiro e fevereiro de 2026 (até dia 20): 25.
Mortes
- Janeiro e fevereiro de 2025: 6;
- Janeiro e fevereiro de 2026: 8.
Aumento de transmissão
A transmissão da meningite ocorre por meio de gotículas e partículas respiratórias, como explica o médico infectologista Luís Arthur Brasil, do Hospital São José (HSJ), unidade estadual de referência no diagnóstico e tratamento de doenças infecciosas.
“Os casos de meningite, assim como as infecções respiratórias, têm muita relação com a quadra chuvosa. Se as chuvas se anteciparem, tendemos a ter um período com maior número de casos. Enxergamos a meningite como doença que tem certa sazonalidade, mas que tem prevenção”, frisa o médico.
Os principais agentes causadores da doença podem afetar qualquer pessoa, de qualquer idade – mas, epidemiologicamente, têm prevalências específicas, como lista o infectologista:
- bebês abaixo de 3 meses: tendem a ter meningites por outros agentes, como vermes do canal de parto;
- pessoas abaixo de 18 anos: prevalência de meningites virais;
- adultos: predominância de meningites bacterianas, enquanto as virais cursam mais leves.
O Ministério da Saúde lista as possíveis formas de transmissão da meningite, a depender do agente causador:
- Meningite bacteriana: as bactérias se espalham de uma pessoa para outra por meio das vias respiratórias, por gotículas e secreções do nariz e da garganta. Outras bactérias podem se espalhar por meio dos alimentos;
- Meningite viral: a transmissão muda a depender do vírus. Se for enterovírus, os vírus passam ao tocar ou apertar as mãos de alguém infectado; tocar em objetos ou superfícies com o vírus e depois tocar nos olhos, nariz ou boca sem lavar as mãos, trocar fraldas de uma pessoa infectada, beber água ou comer alimentos crus que contenham o vírus. Se for arbovírus, ocorre pela picada de mosquitos contaminados;
- Meningite por fungos: não é transmitida de pessoa para pessoa. Os fungos são adquiridos pela inalação dos esporos (pequenos pedaços de fungos) presentes em solos ou ambientes contaminados com excrementos de pássaros ou morcegos. Um outro fungo, chamado Candida, geralmente é adquirido em ambiente hospitalar;
- Meningite por parasitas: não são transmitidos de uma pessoa para outra, e normalmente infectam animais. As pessoas são infectadas pela ingestão de produtos ou alimentos contaminados que tenham a forma ou a fase infecciosa do parasita.
As populações mais vulneráveis, de forma geral, são as crianças e os idosos, mas outras faixas também estão vulneráveis. Questionado sobre a predominância de jovens entre os casos confirmados e o número de mortes neste ano, Luís Arthur aponta o possível impacto da não vacinação.
“Nós atribuímos muito o aumento do número de casos à redução nas cobertura vacinais. A população precisa buscar a vacinação, principalmente para as meningites bacterianas em geral. A vacina é amplamente disponível no SUS, mas as coberturas ainda estão abaixo do que desejamos”, pontua.
Como prevenir a meningite
A principal forma de prevenção da meningite é a vacinação – e não apenas a meningocócica, como explica o infectologista do HSJ. “Temos várias vacinas disponíveis, a maior parte inicia desde a infância. Quando tomamos desde novos, geramos proteção para a vida adulta”, inicia o médico.
De acordo com o Calendário Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde, as doses contra meningite disponíveis no SUS devem ser aplicadas nas idades de:
- 3 meses: meningocócica C, 1ª dose, contra meningite, encefalite e meningoencefalite pelo meningococo tipo C;
- 5 meses: meningocócica C, 2ª dose;
- 12 meses: meningocócica ACWY, dose única, contra meningite, encefalite e meningoencefalite por meningococos dos tipos A, C, W, Y.
Adolescentes e adultos que não tomaram as vacinas no período correto podem procurar o posto de saúde para atualizar a proteção.
Na rede privada também está disponível a vacina contra a meningite tipo B. Um projeto de lei de 2023 (PL 1286) solicita a inclusão do imunizante no Programa Nacional de Imunizações (PNI), mas ainda está em tramitação.
Outros imunizantes disponíveis no SUS também se relacionam à prevenção da doença:
- BCG: protege contra formas graves da tuberculose, incluindo meningite;
- Pneumocócica: previne doenças invasivas, incluindo meningite;
- Pentavalente: protege contra Haemophilus influenzae tipo b.
“99% das principais vacinas que protegem contra os principais sorotipos, que causam as meningites graves, estão disponíveis gratuitamente no SUS. A rede pública tem um arsenal profilático vacinal muito amplo. O que precisamos é reforçar a conscientização da população a buscar em todas as faixas etárias”, complementa Luís Arthur.
Quais os sintomas da meningite?
Três sintomas “clássicos” são fundamentais para reconhecer a meningite, como informa o infectologista:
- febre alta;
- dor de cabeça muito intensa;
- rigidez da nuca.
Casos mais graves podem evoluir com desorientação e exigir atendimento mais urgente.
“É muito importante que, ao perceber o início dos sintomas, o indivíduo já busque atendimento médico. Os casos suspeitos geralmente são referenciados para os hospitais terciários, como o HSJ, pra que haja o diagnóstico e tratamento”, situa.
O tratamento das meningites bacterianas é feito por meio de antibióticos. Já as formas virais da doença tendem a ser “autolimitadas”, ou seja, “se resolvem sozinhas”, como descreve o profissional de saúde.
O Ministério da Saúde descreve os sintomas das meningites causadas pelos diversos agentes, todos semelhantes:
- Sintomas de meningite bacteriana: febre, dor de cabeça e rigidez de nuca; muitas vezes há mal-estar, náusea, vômito, fotofobia (aumento da sensibilidade à luz), status mental alterado (confusão). Se agravar, podem surgir convulsões, delírio, tremores e coma.
- Sintomas de meningite viral: febre, dor de cabeça, rigidez de nuca, náusea, vômito, falta de apetite, irritabilidade, sonolência ou dificuldade para acordar, letargia, fotofobia (aumento da sensibilidade à luz).
- Sintomas de meningite por parasitas: dores de cabeça, rigidez de nuca, náuseas, vômitos, fotofobia (sensibilidade à luz) e/ou estado mental alterado (confusão).
- Sintomas de meningite por fungos: febre, dor de cabeça, rigidez de nuca, náusea, vômitos, fotofobia (sensibilidade à luz), e status mental alterado.
O MS reforça que “a meningite é uma emergência médica” e “todos os casos suspeitos devem ser internados para avaliação e tratamento. O início do tratamento não deve ser atrasado por conta da realização de exames laboratoriais para identificação do agente causador”.
Cada tipo da doença é tratado de forma específica e deve ser orientado pelos profissionais de saúde.














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