Críticas e reclamações sobre os dados da Fundação geram debates sobre a confiabilidade das informações.

Nas redes sociais, é comum se encontrar reclamações sobre as previsões da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Porém, o fato de não cair chuva – ou chover demais – em determinados momentos pode ser considerado um erro, já que o órgão trabalha com probabilidades, sem descartar nenhum cenário?
Conforme os números da Funceme em relação às previsões para as quadras chuvosas no Ceará, nos últimos 13 anos, o cenário que ela indicou como mais provável aconteceu 11 vezes.
Segundo dados oficiais divulgados na última quarta-feira (21), apenas em 2018 e 2024 o padrão de chuvas não correspondeu à maior probabilidade prevista pelo sistema do órgão, que é utilizado para o planejamento hídrico e agrícola do Estado.
Em 2018, a fundação indicou maior chance de precipitações acima da média (40%), mas o prognóstico não se concretizou. A quadra findou com acumulado dentro da média. Já dois anos atrás, em 2024, havia 45% de expectativa de que as chuvas fossem abaixo da normal histórica, mas elas ficaram acima da média, surpreendendo muitos produtores rurais.
Os dados demonstram que, apesar da complexidade climática do semiárido, o sistema de monitoramento do Ceará possui uma eficiência de 85% no longo prazo.
A explicação do presidente da Funceme, Eduardo Sávio Martins, é direta: “nem todo ano é igual”. Em alguns anos, os fatores para uma quadra boa ou ruim são tão bem definidos que é possível apontar até quais áreas do Ceará serão mais ou menos impactadas. Outros, como 2026, são incógnitas.
“Daí a dificuldade do usuário de entender isso. A gente não consegue ainda regionalizar a previsão climática. Para isso, a gente precisa investir muito em pesquisa”, afirma o gestor.
Portanto, a Funceme não “erra” ou “acerta”, mas aponta informações de probabilidade para diferentes categorias. “Essa é uma descrição do risco que eu tenho das três categorias. Como é que eu vou usar isso no meu negócio, isso é outra questão”, aponta.
Então, por ser uma previsão, o órgão não é capaz de afirmar que o evento de chuva vai acontecer ou não, mas consegue apontar que as condições atmosféricas indicam maior ou menor chance de ocorrência. Logo, a previsão não pode ser vista como uma promessa, e sim uma orientação sobre as tendências verificadas em determinado recorte e período temporal.
Vai chover em 2026 no Ceará?
Nesta semana, novos debates sobre a confiabilidade dos dados da Funceme ressurgiram, já que o órgão divulgou o prognóstico de chuvas de 2026. Conforme os dados, o Ceará tem condições iguais de chuvas abaixo ou dentro da média em 2026.
Para o trimestre fevereiro-março-abril, a Funceme indicou:
- 40% de chuvas dentro da normalidade;
- 40% de chuvas abaixo da normalidade;
- 20% de chuvas acima da normalidade.
Segundo Eduardo Sávio Martins, presidente da Funceme, não é possível fazer o zoneamento de onde pode ter mais ou menos chuvas no Estado. “Sinalizamos gradientes em alguns anos, mas nesse ano não temos uma convergência dos modelos”, explica.
A divulgação ocorreu em um mês de janeiro com poucas chuvas e com uma pré-estação sendo considerada a segunda pior da série histórica. Eduardo reconhece que “começar a estação nessas condições é preocupante”, uma vez que o solo precisa receber umidade para que os açudes consigam reter água.
Como funciona o sistema de previsão?
O modelo de previsão da Funceme trabalha com probabilidades distribuídas em três categorias:
- Acima da Normal: quando o acumulado de chuvas no período não atinge a média histórica registrada, chamada de “normal meteorológica” (acumulados abaixo de 512,5 mm);
- Em Torno da Normal: quando o acumulado de chuvas no período fica dentro da média (entre 512,5 mm e 705,9 mm);
- Abaixo da Normal: quando o acumulado de chuvas no período excede a média (acima de 705,9 mm).
O êxito é contabilizado quando a categoria que recebeu a maior probabilidade coincide com o resultado efetivamente observado.
Eduardo Sávio Martins lembra que, desde 2013, o órgão foi a primeira instituição estadual de meteorologia do País a processar um modelo climático global.
Veja também
Desde então, o novo produto gerado e rodado internamente na instituição passou a ser analisado junto aos modelos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe). Juntos, eles formam o “superconjunto nacional de modelos”.
Na prática, o diferencial dessa análise própria é que ela produz dados independentes a partir do uso de programas computacionais e sistemas integrados e permite um olhar mais focado no Ceará, ajudando a detalhar informações climáticas.
“Foi um movimento para poder fazer tudo isso sem depender de ajuda externa. Hoje, a gente consegue configurar os nossos modelos e estamos buscando incluir novos, porque cada modelo dá um sinal um pouco diferente que, combinados, conseguem uma previsão melhor”, descreve o pesquisador.
Modelos dinâmicos de previsão – que tratam o clima como um sistema em constante transformação e não um padrão estático –, têm ajudado na tomada de decisão e no gerenciamento de áreas como recursos hídricos e agricultura, que são impactadas pela variabilidade do clima.
Evolução do sistema de previsão
A previsão climática no Ceará tem uma trajetória de busca por autonomia tecnológica e precisão científica, segundo a a Funceme. A Fundação diz que se tornou referência nacional partindo de parcerias internacionais até o desenvolvimento de sistemas próprios.
O ano de 1999 marca o início da modelagem numérica na Funceme. Naquele ano, foi assinado um convênio estratégico com o International Research Institute for Climate and Society (IRI), dos Estados Unidos, viabilizado pelo Governo do Estado.
O objetivo central era a capacitação técnica para a regionalização de modelos globais. “Eram 14 microprocessadores Pentium 3, que eram configurados para rodar o modelo regional alimentado pelo modelo global deles. Eles mandavam fitas para cá, a gente lia e rodava a previsão”, lembra Eduardo.

Em 2004, um novo salto. A implementação de um cluster de 30 microprocessadores Pentium 4, bem como projetos de pesquisadores internos e parcerias acadêmicas, permitiram que a instituição rodasse o modelo regional com maior robustez, embora ainda dependesse dos dados globais fornecidos pelo IRI.
Contudo, o projeto formal foi encerrado e o vínculo entre as entidades se tornou voluntário. Por isso, em 2012, a Funceme tomou a decisão de não mais depender exclusivamente de ajuda externa e buscar seu próprio modelo global.
Em janeiro de 2013, a instituição passou a integrar o “superconjunto nacional”, unindo suas previsões numéricas às do CPTEC e do Inmet. Esse movimento permitiu uma análise mais objetiva, combinando diferentes modelos para descrever melhor as incertezas e probabilidades do clima.
Caio Coelho, pesquisador do CPTEC, ressalta que a relação entre os órgãos foi construída ao longo dos anos e funciona com a complementação de informações das previsões. “A gente tem uma metodologia de tentar agregar e usar tudo que tá disponível no país para dar o melhor que a gente pode oferecer”, diz.
O especialista afirma ainda que se busca sempre evoluir os sistemas. Atualmente, os comandos computacionais se baseiam na temperatura do oceano persistida, ou seja, como as chuvas se comportam no ambiente a médio prazo. Porém, já há testes para avaliar situações mais dinâmicas, acoplando dados do oceano com a atmosfera.
Desvios na previsão
Nos primeiros anos após 2013, marcados por uma severa seca no Estado, a Funceme manteve 100% de precisão. Nos quatro anos seguintes, a maior probabilidade era de chuvas abaixo da normal (variando de 45% a 65%). Em todos eles, se confirmou a categoria observada.
Em 2017, o prognóstico indicou maior chance (40%) de chuvas em torno da normal durante a quadra cearense. O resultado foi confirmado.
O ano mais recente em que o acumulado menos provável ocorreu foi em 2018, quando a Funceme apontou 40% de chances de chuvas acima da normal. Contudo, o observado ficou na categoria Em Torno da Normal.
Em seguida, de 2019 a 2023, houve uma nova sequência de prognósticos precisos, incluindo dois anos com chuvas acima do normal (2020 e 2013).
Já 2024 representou o desvio mais expressivo do órgão. Com o El Niño, a Funceme projetou 45% de chances de chuvas abaixo da norma – mas o Ceará registrou 690,1 mm, resultando na categoria acima da normal.
No ano passado, a maior probabilidade (45%) foi de chuvas em torno da normal. O dado observado confirmou a previsão.
Futuro da previsão no Ceará
Segundo Eduardo Sávio, o sistema da Funceme continua em constante aprimoramento, trazendo inovações que vão além da previsão sazonal tradicional.
A instituição opera um sistema subsazonal que fornece previsões para prazos de 7, 14, 30 e 44 dias, essencial para o monitoramento dentro da quadra chuvosa e suporte ao Comitê de Segurança Hídrica.
Atualmente, a Funceme roda dois modelos globais (o americano CAM e o alemão ECHAM). As pesquisas atuais buscam a transição para modelos acoplados entre oceano e atmosfera, onde a troca de calor e umidade entre o mar e o ar é resolvida dinamicamente pelo sistema, tornando as previsões ainda mais realistas.
Além disso, estão sendo realizados testes com um modelo regional para toda a América do Sul, visando detalhar ainda mais a previsão para o Estado do Ceará.
Contudo, o gestor ressalta a fase inicial da iniciativa. “Ainda está muito cedo. A primeira vez que usamos foi esse ano, mas ainda estamos analisando, então não lançamos essa informação. A expectativa é que, nos próximos anos, se tudo correr bem e essa informação for de valor, a gente conseguir lançar também”, informa.













Adcionar comentário