
A saúde mental é o bem mais precioso porque é a posse sobre nossa possibilidade de ser e existir. Envolve nossa capacidade de lidar com a realidade, integrar o diverso, acomodar emoções, desenvolver um senso de identidade, ser capaz de amar, criar, trabalhar, identificar o que nos faz bem e colocar limites.
Ela também ajuda a nos proteger, ser capaz de ter atenção, memória, linguagem, articular ideias, afetos, agir avaliando o contexto, construir esperança, compreender a importância da natureza, do ambiente, contribuir com a vida da coletividade, regular-se emocionalmente, encontrar conforto para existir e ser.
A saúde mental sempre trouxe enigmas para a humanidade e tem sido objeto de reflexões de filósofos, cientistas, poetas, cineastas, artistas, religiosos, pois são questões que nos desafiam sobre a humanidade em sua essência e construção. Saúde mental não é ausência de sofrimento nem um sujeito em impossível equilíbrio eterno.
A saúde mental permite identificar uma situação difícil e agir de forma adequada, sem se desorganizar, agredir ou permanecer na situação para sofrer e cronificar.
Encontrar alternativas para sair da melhor forma de situações difíceis sem nos destruirmos; sobreviver à violência, reconhecer a importância de exigir uma vida justa e digna e reconhecer aquilo que nos faz mal e sermos capazes de desatar nós e armadilhas de manipulação e controle, também se relaciona com a saúde mental. Por isso ela é o recurso mais valioso para nossa sobrevivência.
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Adoecemos por um amálgama de fatores: internos, externos, relacionais, sociais. Entretanto, os estudos mais recentes enfatizam não somente a busca pela redução de sintomas, mas os aspectos preventivos e a relevância de construir um projeto terapêutico que permita uma vida onde o sujeito seja capaz de: regular emoções, estabelecer vínculos com qualidade, construir uma vida com sentido, estabelecer ações com continuidade e uma rotina saudável de forma integral (sono, trabalho, vitalidade psíquica, desejo, participação ativa na comunidade).
Assim, o sono exerce um aspecto importante para a higiene mental. Problemas no sono não são somente consequências de adoecimentos psíquicos. Muitas vezes a insônia precede quadros de ansiedade e depressão. A prática de Mindfulness, embora possa ter efeitos importantes sobre a capacidade de relaxamento e auxílio no sono, quadros de ansiedade e depressão, precisa de cautela em situações de trauma ativo.
Como dormir bem em ambientes sem conforto e em cenários de violência? E aqueles que trabalham durante toda a noite? E os que fazem uso excessivo de telas? E os que precisam madrugar para se deslocar ao trabalho? Será possível proteger o seu horário de descanso? Será que todos possuem verdadeiramente o direito de poder descansar 8 horas?
A atividade física possui imensa relevância na saúde mental, pois atua na capacidade de regulação neurobiológica e em alguns quadros, exercício moderado (3 a 5 vezes por semana, de 30 a 45 minutos) produz efeito igual ou superior a antidepressivos leves. Entretanto, se feito em excesso pode piorar os sintomas.
Assim como sobrecarga física decorrente de esgotamento físico e mental podem acarretar Burnout. Infelizmente, existe uma cultura adoecida que romantiza o cansaço, o sofrimento e o sacrifício, culpabilizando descanso e a necessidade de lazer. Atividade física não é trabalho braçal estafante.
Os mais recentes estudos assinalam também que: possuir vínculos previsíveis e seguros reduzem risco de adoecimento. A solidão é um fator de risco, pois o isolamento pode deprimir e diminuir a atividade sobre o mundo.
As pesquisas mostram que os melhores resultados envolvem investir em poucas relações confiáveis (não muitas), presenciais, onde exista reciprocidade e segurança. O amor seguro e a amizade confiável, protegem e amplificam a esperança e a capacidade de sonhar.
Contemporaneamente valoriza-se a importância da flexibilidade psíquica, da capacidade de lidar com os problemas e a disponibilidade para aprender e mudar; da importância da espiritualidade, que não está ligada nem a religiões, nem a instituições, mas ao sentido da existência.
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Uma vida com sentido e com vínculos seguros possui relevância no processo de construir uma relação de conforto consigo. Quando a vida é vazia, quando se perde o sonho e a esperança, o sujeito colapsa junto.
A medicação pode ser necessária, mas não vai fazer você mudar a maneira de lidar com sua vida, tomar decisões nem construir recursos emocionais. Além disso, o cuidar da alimentação, pois dieta inflamatória (álcool em excesso, açúcar, ultraprocessados etc.) também interfere no funcionamento bioquímico e neurológico.
E aqueles que o tempo de alimentação é sobrepujado pela dinâmica do trabalho? E os que se encontram em insegurança alimentar? Além disso, os alimentos não possuem apenas o papel nutricional. Sobre o que ingerimos depositamos desejos, ansiedades e pode ser cenário que revela muito do nosso estado emocional.
As práticas de cuidado em saúde mental têm se modificado ao longo dos anos, principalmente devido à Reforma Psiquiátrica, caracterizada por uma abordagem humanista, que respeita a singularidade e autonomia do sujeito, onde se enfatiza o uso de uma linguagem descentrada de sintomas e classificações, para o olhar sobre a pessoa: pessoa em sofrimento, pessoa em depressão.
Entender que há um ser humano com uma história, que valoriza o contexto, a história de vida, o sentido daquele adoecimento, as relações que a pessoa estabelece com o seu ambiente e a conexão entre o sistema nervoso e vida.
Além disso, busca por uma compreensão integrada sobre como os diversos aspectos e cenários da vida se sobrepõem e podem construir dimensões de sofrimento psíquico que geram esgotamento e sobrecarga, reconhecendo os impactos das violências, da precarização da vida e suas determinações sociais sobre o sofrimento.
Torna-se cada vez mais necessário investimentos e políticas públicas que fortaleçam a Rede de Atenção Psicossocial, que valorize os profissionais, que incentivem projetos intersetoriais, que abordem questões interseccionais, com direcionamento especifico para saúde mental de crianças e adolescentes, mulheres, população LGBTQIAPN+, população indígena e população negra.
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No Brasil, o sofrimento psíquico está fortemente ligado ao trabalho informal e precarizado, insegurança financeira, violência urbana, sobrecarga de atividades (principalmente em mulheres), acesso desigual ao cuidado (que propicia início tardio do tratamento ou interrupção do mesmo), fragilidade dos vínculos, desigualdade e racismo estrutural, além de pouco investimento em prevenção.
Torna-se imprescindível valorizar a atenção social comunitária, ofertar maior investimento em pesquisas e em intervenções baseadas em evidências, realizar monitoramento e avaliação das políticas públicas em saúde mental, envolver os familiares, integrar cuidados em educação, saúde, assistência social, fortalecer as intervenções na atenção primária e em campanhas educativas, para diminuir o preconceito e esclarecer sobre ações de prevenção.
Infelizmente, observam-se crianças e adolescentes em sofrimento crescente: uso excessivo de telas, desesperança, falta de perspectiva de vida, falta de suporte para lidar com os enigmas do desenvolvimento e construir as habilidades necessárias para o lidar com a vida, escolas sem suporte para inserir projetos de saúde mental no currículo, famílias sobrecarregadas, pouco investimento governamental, aumento de estigma e preconceito, o que dificulta a procura por ajuda.
A saúde mental é um projeto coletivo. Encontrar um lugar no mundo para existir, estar confortável consigo, passa pelos cuidados de muitas mãos. Nossa saúde mental está suscetível a mudanças de acordo com as políticas de habitação, segurança, educação, trabalho, renda, proteção social, acesso à arte e ao esporte.
A saúde mental precisa da existência dignidade para viver, para ser visto. O maior patrimônio que podemos construir é tomarmos posse de quem somos e experimentar alegria compartilhada nisso.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

















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