Em decisão que mandou prender o dono do Banco Master, relator do caso no STF afirma que há evidências de crimes graves, risco a vítimas e acesso indevido a sistemas da PF e da Interpol. Ministro cita plano para agredir jornalista: ‘Dar um pau nele’.
Por Andréia Sadi, Juliana Braga
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O STF ordenou a prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por suspeita de crimes financeiros e obstrução de justiça.
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Ministro Mendonça criticou a PGR por não ver urgência, afirmando que “a demora se revela extremamente perigosa para a sociedade”.
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A decisão do STF revela que Vorcaro planejou agredir o jornalista Lauro Jardim, ordenando “quebrar todos os dentes”.
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A PF investiga Vorcaro por manter “estrutura de vigilância e coerção privada” e acessar dados sigilosos de autoridades.
Em um dos trechos da decisão do Supremo Tribunal Federal que mandou prender o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, nesta quarta-feira (4), o relator do caso, ministro André Mendonça, dá um duro recado à Procuradoria-Geral da República (PGR), cobra urgência nas investigações e cita um plano do banqueiro para agredir o jornalista Lauro Jardim, do jornal “O Globo”.
No despacho, Mendonça registra que discorda da avaliação da PGR de que não haveria urgência para analisar pedidos de medidas cautelares apresentados pela Polícia Federal e afirma que as evidências reunidas apontam para crimes de grande gravidade e risco concreto às investigações.
A decisão que levou à prisão de Vorcaro atende a um pedido da Polícia Federal (PF) por suspeita de crimes contra o sistema financeiro, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça. Além de Vorcaro, foram alvo da operação da PF, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, o coordenador de segurança Luiz Phillipi Mourão, apelidado de “Sicário”, e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
‘Puxão de orelha’
Em 27 de fevereiro, a Polícia Federal pediu ao STF a prisão preventiva dos investigados, ao afirmar que o grupo mantinha uma “estrutura de vigilância e coerção privada” voltada ao monitoramento de alvos e à intimidação de pessoas ligadas às investigações.
Ao receber o pedido, Mendonça concedeu 72 horas para manifestação da PGR. O órgão afirmou que não havia, no pedido, “indicação de perigo iminente, imediato, que induza a extraordinária necessidade de tão rápida e necessariamente sucinta análise do pleito”.
Na decisão, o ministro rebate essa avaliação. Segundo ele, a representação da Polícia Federal “traz sérias evidências da continuada prática de crimes de gravíssima repercussão”.
Mendonça afirma ainda que a urgência do caso é clara.
“É preciso ressaltar que a urgência na tramitação deste feito decorre do perigo iminente a bens jurídicos da mais elevada relevância e de envergadura constitucional”, destacou.
O relator afirma que a avaliação da PGR ignorou indícios relevantes apresentados pela investigação.
Em um trecho mais direto, Mendonça diz lamentar a postura da PGR diante de “robusto quadro fático-probatório” e que a demora revela-se “extremamente perigosa para a sociedade”.
“Lamenta-se (i) porque, as evidências dos ilícitos e a urgência para adoção das medidas requeridas estão fartamente reveladas na representação da Polícia Federal e no curso desta decisão; conforme documentado nos autos, também (ii) porque se está diante da concreta possibilidade de se prevenir possíveis condutas ilícitas contra a integridade física e moral de cidadãos comuns, de jornalista e até mesmo de autoridades públicas; (iii) porque há indicativos de ter havido acesso indevido dos sistemas sigilosos da Polícia Federal, do próprio Ministério Público Federal e até mesmo de organismos internacionais como a Interpol. Portanto, se as medidas requeridas pela Polícia Federal não forem acolhidas, em caráter de urgência, pode-se colocar em risco a segurança e a própria vida de pessoas que se tornaram vítimas dos ilícitos apontados nestes autos, bem como dificultar, sobremaneira, a recuperação de ativos bilionários que foram desviados dos cofres públicos e de particulares atingidos pelos variados crimes contra o sistema financeiro nacional apurados nestes autos”, diz.
‘Dar um pau em jornalista’
Segundo o ministro, as evidências reunidas pela investigação indicam não apenas a gravidade dos ilícitos, mas também a necessidade de medidas urgentes para evitar novas condutas criminosas.
Ele cita, por exemplo, “a concreta possibilidade de se prevenir possíveis condutas ilícitas contra a integridade física e moral de cidadãos comuns, de jornalista e até mesmo de autoridades públicas”.
As investigações da PF mostram que Daniel Vorcaro, ex-sócio do Master, pagava R$ 1 milhão mensal a Phillipi Mourão, cujo apelido era “Sicário”, para acessar dados em sistemas restritos de órgãos públicos para obtenção de dados pessoas de autoridades, jornalistas e outros indivíduos considerados de interesse da instituição. Também monitorava pessoas para “neutralizar” situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo.
Mensagens interceptadas pelos investigadores mostram Vorcaro ordenando a Mourão que o jornalista Lauro Jardim, do jornal “O Globo” fosse agredido para “quebrar todos os dentes” em um assalto forjado, após a publicação de notícias contrárias aos interesses do banqueiro.
“Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Para pegar tudo dele”, disse Vorcaro a Mourão.
Em um novo diálogo, ele pede: “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.
Segundo o ministro, as evidências reunidas pela investigação indicam não apenas a gravidade dos ilícitos, mas também a necessidade de medidas urgentes para evitar novas condutas criminosas, inclusive possível ameaça a jornalistas.
Para Mendonça, ignorar esses elementos poderia trazer consequências graves. No despacho, ele afirma que, se as medidas solicitadas pela Polícia Federal não forem adotadas com urgência, “pode-se colocar em risco a segurança e a própria vida de pessoas que se tornaram vítimas dos ilícitos apontados nestes autos”.
O relator também menciona que a demora pode dificultar a recuperação de ativos bilionários desviados em crimes contra o sistema financeiro nacional.
No trecho final da decisão, Mendonça reforça o argumento de urgência e conclui com uma expressão em latim: “tempus fugit” (o tempo foge), afirmando que, no caso específico da investigação, “a demora se revela extremamente perigosa para a sociedade”.
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Ministro André Mendonça. — Foto: Luiz Roberto/TSE











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