Luciano Rodriguesluciano.rodrigues@svm.com.br
23/03/2026 – 14:00
Prosperar no meio rural não é uma tarefa simples. A agricultura de subsistência, em pequenas propriedades, ainda predomina como a principal atividade do segmento no País. Na Serra da Ibiapaba, no entanto, pouco a pouco os produtores evoluem e consolidam um plantio forte, baseado nos aprendizados familiares.
Segundo informações do último Censo Agropecuário, em 2022 e elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os municípios da região de planejamento da Serra da Ibiapaba tinham cerca de 20 mil unidades familiares de produção rural.
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Na maior parte delas, são agricultores familiares de pequeno porte. Alguns deles, contudo, conseguem escalar a produção, auxiliados por programas de microcrédito rural, como o Agroamigo, do Banco do Nordeste (BNB), e tornar-se produtores rurais de porte mais elevado, escoando a produção para grandes mercados.
Do cultivo orgânico ao convencional, a produção é respaldada por técnicas marcadas pela inovação e tecnologia, com altas captações de crédito. Esse desenvolvimento dá visibilidade aos saberes tradicionais aprendidos nas bases da agricultura familiar.
Na segunda e última parte da reportagem “O novo agro: microcrédito rural como motor de desenvolvimento do Ceará”, o Diário do Nordeste se debruça sobre produtores rurais que começaram com pequenas produções aprendidas nos quintais de casa, mas prosperaram e hoje são referências nos municípios cearenses na divisa com o Piauí em como aliar práticas modernas com os conhecimentos tradicionais.

Da sala de aula para o quintal de casa
A infância de Tiago Rodrigues foi no distrito de Sítio Limoeiro dos Pompeus, em Guaraciaba do Norte. Na terra vermelha que antes cortava a propriedade da família, ele viu o avô e o pai se dedicarem à cana-de-açúcar para fazer rapadura. Depois, começaram as hortaliças e o tomate.
Guaraciaba hoje é considerada a “capital do tomate” no Ceará, muito em virtude dos cultivos iniciados no fim do século passado. A família de Tiago até tinha um cultivo tradicional, mas que quase fez com que o pai dele abandonasse a agricultura de vez.
“Meu pai começou a produzir em uma quantidade maior. O plantio de tomate convencional era o carro-chefe. Ele trabalhou muitos anos com a produção, mas infelizmente sofreu intoxicação devido ao uso dos produtos e estava praticamente impossibilitado de trabalhar”, conta.
“Quando ele participou de uma palestra falando sobre orgânico, achou interessante e resolveu apostar. Daí os outros irmãos iniciaram e família toda veio trabalhar com produção orgânica”, recorda.



Legenda: Tiago Rodrigues tem uma plantação orgânica nas terras da família em Guaraciaba do Norte.
Foto: Fabiane de Paula.
Hoje, toda a família produz orgânicos, que incluem acelga, alface, cebolinha e coentro – conhecidos como a dupla “cheiro-verde” – e salsa, além de maracujá, pimentão e tomate. A produção, no começo, contou com o apoio do Agroamigo, com empréstimos para auxiliar na captação de água para irrigar as plantações.
“A gente utilizou o Agroamigo para os poços. A água vinha antes de um riacho que corta a propriedade, mas, com o passar do tempo, não ficou mais perene. Tivemos necessidade naquela seca do começo dos anos 2010. Recorremos ao crédito do banco, que foi a nossa principal porta de entrada no BNB”, enfatiza Tiago.
O crescimento da produção fez com que a atividade da família de Tiago se desenquadrasse das faixas do Agroamigo. Os empréstimos junto ao BNB entraram na categoria do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
É uma etapa inicial muito importante para destravar. Produtor, em geral, não tinha acesso ao crédito, não sabia como funcionava. Tinha uma renda baixa. Essa linha inicial ajuda nessa quebra de barreira, dando capacidade de subir de categoria e conseguir acessar novas linhas de crédito”.Tiago Rodrigues
Engenheiro agrônomo e produtor rural na Serra da Ibiapaba
Além de produtor rural, Tiago é ainda formado em Agronomia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Após morar em Fortaleza para a graduação, retornou ao Sítio Limoeiro dos Pompeus para auxiliar na produção familiar.
Atualmente, toda a produção rural conta com o apoio dos pais, primos e tios, totalizando 20 pessoas no total. São 10 hectares onde se comercializam os produtos com clientes principalmente de Fortaleza, contando com a certificação orgânica e técnicas como irrigação por gotejamento, além de placas de energia fotovoltaicas para fornecer eletricidade.
“A gente tem uma bagagem prática do dia a dia, mas nem sempre é o que há de melhor. Quando se estuda, se assimila esse conhecimento e o traz para se colocar em prática para melhorar os recursos, maximizar a produção e a lucratividade. É muito importante esse retorno para trazer o conhecimento adquirido para casa, que não fica só aqui: espalha para os vizinhos e vai difundindo o que trouxemos”, considera.



Legenda: Aliando tecnologia com conhecimentos tradicionais, família de Tiago Rodrigues só produz orgânicos.
Foto: Fabiane de Paula.
No retorno para o distrito da família, há oito anos, Tiago percebeu a necessidade de difundir o conhecimento técnico da agronomia com os vizinhos e fundou uma empresa de consultoria que atende agricultores que queiram se certificar como produtores orgânicos.
“Nossa propriedade é certificada. Um dia, fui ajudar o vizinho, que foi falando para outros produtores que também não conseguiam se certificar como orgânicos. A empresa surgiu para atuar no auxílio ao produtor, tanto em técnicas como nessa parte burocrática”, pontua o engenheiro-agrônomo.
O filho do campo que virou empresário
Um dos principais pontos turísticos de Carnaubal é o Mirante de Santo Antônio, às margens da CE-323. De frente para o local, no distrito Sítio Cachoeira do Norte, está a propriedade de Daniel Souza, que conhece bem o que é ser produtor rural com pouco.
“Acompanhamos o que meu pai fazia desde muito cedo. Ele iniciou na agricultura aos 12 anos, e era algo muito precário. A irrigação era com latas, captando água dos riachos. Somos de uma família de quatro irmãos e todos seguiram a profissão do meu pai e da minha mãe, que são agricultores”, conta.
A entrada de Daniel e dos irmãos na plantação de José Souza, pai deles, começou no início dos anos 2000, tudo feito “de forma meio rústica”. “Meu pai coordenava os trabalhos, designava o que seria plantado e quando”, lembra.
Daniel exalta a captação dos recursos via Agroamigo, especialmente por possibilitar um planejamento ordenado e adequado das técnicas de plantio e do uso de novas tecnologias.



Legenda: Daniel Souza é produtor rural desde o início dos anos 2000, e aprendeu as técnicas com o pai, José.
Foto: Fabiane de Paula.
O Agroamigo nos proporcionou o principal: capitalização de recursos para o plantio. Tem a vantagem de ser um crédito subsidiado, onde não pagamos juros, temos um desconto pagando em dia, e foi a forma que tivemos de se investir e ter um prazo que pudéssemos retornar o capital para o banco”. Daniel Souza
Produtor rural de Carnaubal
Desde quando começou a pegar o Agroamigo, em 2005, no início do programa, Daniel viu a produção se transformar. O que antes era feito em áreas arrendadas, hoje é propriedade do produtor rural. A irrigação, feita de forma improvisada, segue na velocidade da microaspersão nos 60 hectares dedicados para maracujá, cenoura, banana, pimentão e hortaliças em geral.
“Contamos com um grupo de 35 colaboradores, já temos dois tratores para trabalhar especificamente na nossa área, temos máquinas de beneficiamento dos nossos produtos e tudo isso com recurso oriundo desses financiamentos. A gente não faz mais o perfil do Agroamigo, mas incentivamos que os agricultores peguem. Todos os maquinários que a gente conseguiu foram financiados por esses créditos”, defende.
“Meu pai quem me ensinou a trabalhar desde muito cedo. A base foi feita com o Agroamigo, era um valor na época em torno de R$ 9 mil, tinha um desconto de 40%. A gente saiu dessa linha de crédito e fomos para a outra, mas porque houve planejamento. Tiramos financiamento de R$ 500 mil e até de R$ 1 milhão”, registra o produtor.
Aliado ao microcrédito rural, Daniel Souza acredita que o que impulsiona a Serra da Ibiapaba a ser o principal local de produção agrícola do Estado é “a força do ibiapabano”. A produção dele e de outros 53 produtores de Carnaubal e municípios vizinhos é comercializada via CoopeNort, cooperativa da qual Daniel é diretor-presidente.



Legenda: Inovação em Carnaubal está alinhada ao desenvolvimento de técnicas modernas e tradicionais no campo.
Foto: Fabiane de Paula.
“Hoje, a mecanização se tornou algo que não é para se pensar, é uma necessidade. Tecnologia não significa tirar a mão de obra. É produzir mais com a mão de obra que se tem. Hoje dizer que é agricultor é motivo de orgulho”, comenta.
Agricultura de alto valor na Serra
Histórias como a de Tiago e Daniel se multiplicam na Serra da Ibiapaba. Seja no caso de produções orgânicas, como a do engenheiro-agrônomo, ou convencionais, no caso do produtor rural de Carnaubal, evidenciam que os municípios da região rendem bons números para a economia do Estado.
Essas situações são comprovadas por dados da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec) com base na Produção Agrícola Municipal (PAM), pesquisa divulgada anualmente pelo IBGE. Nela, a região da Serra da Ibiapaba é o principal destaque cearense.
Segundo a Faec, o valor da produção agrícola dos municípios que compõem a microrregião produtiva da Ibiapaba foi de R$ 1,85 bilhão em 2024. Isso representa 30,8% de todo o preço de mercado da safra cearense no mesmo ano, que ficou pouco acima dos R$ 6 bilhões.
R$ 1,85 bilhão
Foi o valor da produção agrícola dos municípios da Serra da Ibiapaba em 2024. Isso representa mais de 30% das cifras obtidas com os plantios de todo o Ceará naquele mesmo ano.
Vale lembrar que o Valor Bruto da Produção (VBP) do polo produtivo da Ibiapaba, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará (SDE), foi de R$ 2,33 bilhões, cerca de 30% do total do Ceará.
Guaraciaba do Norte (R$ 381,1 milhões), São Benedito (R$ 372,3 milhões) e Tianguá (R$ 345,3 milhões) foram os municípios que tiveram as produções mais rentáveis na região.
Exemplos como o de Tiago, que replicou em propriedades rurais no distrito em que mora e trabalha os conhecimentos adquiridos no curso de Agronomia da UFC, são prova da prosperidade da região, como analisa Gustavo Saavedra, chefe-geral da Embrapa Agroindústria Tropical.
“Os produtores rurais copiam muito o vizinho. A Embrapa tem o conceito de que o produtor experimentador recebe uma unidade de referência para que a empresa demonstre o pacote tecnológico. A decisão do risco financeiro é de cada produtor. O que podemos mostrar é que o produtor terá uma alta probabilidade de ter sucesso financeiro com a produção”, pondera Saavedra.
Os dois produtores, que se classificam como de médio porte, utilizam tecnologias aliadas à produção de alto valor agregado. Para o chefe-geral da Embrapa Agroindústria, é uma perspectiva de inovação que inspira outros agricultores da região.
“Tem muitos deles que não trabalham com cultivo protegido, mas sim a céu aberto. Eles ficam muito dependentes de chuva, clima, água, enquanto existem alternativas tecnológicas que obviamente têm seu custo, mas que dão ao produtor uma independência produtiva bem interessante”, avalia.
Nova geração voltou para casa para inovar no campo
Tiago Rodrigues foi estudar Agronomia em Fortaleza e voltou para Guaraciaba do Norte para ampliar a produção familiar e agora presta consultoria para outros produtores no setor
Para Francisco José Tabosa, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Rural da Universidade Federal do Ceará (UFC), são exemplos como esse que expõem o conhecimento teórico dos ibiapabanos.
Mesmo aqueles que vão estudar mais distantes da serra, acabam retornando para reverberar nas produções agrícolas locais.
“Há muitos alunos recém-formados no curso de Agronomia da UFC que estão trabalhando na Serra da Ibiapaba, assim como nos cursos de Economia e Finanças. Em Sobral, tem muitos alunos oriundos da Serra da Ibiapaba. Essa troca de conhecimento facilita inovar. Além disso, pelo fato de o produtor trabalhar em minifúndio e não poder ter uma expansão territorial, acaba buscando inovações para que isso aumente a escala de produção”, pontua.
Assim como os produtores rurais de Guaraciaba do Norte e Carnaubal, o professor da UFC credencia os agricultores da serra a serem protagonistas em editais de inovação, com o desenvolvimento de técnicas, em especial pela falta de disponibilidade de grandes áreas cultiváveis, e que proporcionam desenvolvimento em regiões vizinhas.
“É uma região próspera, mas sem espaço para expansão, até pela área geográfica. Pode-se ter próximo perímetros irrigados, como em Acaraú, Paraipaba e Varjota. São regiões vinculadas aos rios, com água e energia com facilidade”, observa.



Legenda: Frutas, legumes e verduras encontram solo fértil para florescer na Serra da Ibiapaba.
Foto: Fabiane de Paula.
De acordo com a Faec, o VBP do total irrigado da Ibiapaba foi de aproximadamente R$ 2 bilhões em 2024. O valor representa 41,2% do VBP total de todos os polos de irrigação do Estado.
Política pública de sucesso gera autonomia
Ao longo dos 20 anos em vigor, o programa contratou 8,9 milhões de operações. Ao todo, foram empregados mais de R$ 51 bilhões em toda a área de atuação do BNB (todo o Nordeste e áreas de ES e MG). Somente no Ceará, foram contratadas 1,2 milhão de operações.
Um dos objetivos do programa é que o produtor deixe de ser atendido pelo Agroamigo e passe para outras linhas do Pronaf. Atendemos desde o microempreendedor até o grande produtor rural. Uma das nossas missões é fazer com que aquele produtor, que antes não tinha condições, passe a ter uma renda anual que o desenquadre do Agroamigo, mas que o mantenha enquadrado em outras linhas do BNB, também muito vantajosas”.Vandir Farias
Diretor de Negócios do BNB
Exemplos como os de Tiago e Daniel, que já não estão mais aptos a captar recursos via Agroamigo porque ascenderam, mostram a efetividade de uma política pública que não gerou dependência, mas sim autonomia. Para Vandir Farias, diretor de Negócios do banco, são casos inspiradores.
Muitos dos produtores que procuram o BNB em busca do Agroamigo querem auxílio técnico para estruturar a produção, com orientações sobre irrigação adequada, painéis solares – como na linha Agroamigo Sol. Vandir Farias defende que o programa tem como base uma política pública efetiva de desenvolvimento socioeconômico dos produtores.
“Vemos nosso trabalho, que vem a cada ano aumentando os valores aplicados na economia do Nordeste, como impacto social. A pessoa não conseguir pegar mais Agroamigo porque a produção aumentou. Isso é gratificante para a gente. Isso está mostrando que nosso trabalho está sendo efetivo”, comemora.
A carteira ativa do programa contempla números gerais nos 11 estados na área de atuação do banco. Atualmente, estão contratados R$ 18,2 bilhões, e aproximadamente 2 milhões de clientes com operações.
Clima privilegiado e crédito desburocratizado impulsionam agro da Ibiapaba
Silvana Parente conhece de perto a realidade do microcrédito, seja em meio urbano ou rural, e as potencialidades no desenvolvimento produtivo. Atualmente ela desempenha as funções de diretora de economia popular e solidária da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) e coordenadora do Ceará Credi.
Ela é uma das criadoras do Crediamigo, programa de microcrédito urbano orientado do BNB que originou o Agroamigo. Para Silvana, a microfinança rural encontrou um terreno próspero nos pequenos e médios produtores da Serra da Ibiapaba.
Eles têm microclima privilegiado diferente do resto do Ceará. O nível de organização desses produtores de pequeno porte naqueles municípios é favorecido pela proximidade e cooperação entre eles, favorecendo o arranjo produtivo agroalimentar. Eles também tiveram muita capacitação na agroecologia, na produção de pequena monta, mas sem agrotóxico. Isso agrega valor no mercado”.Silvana Parente
Sobre o sucesso agrícola da Serra da Ibiapaba
No caso específico do Agroamigo, Silvana enfatiza que o acesso rápido e fácil do produtor rural ao crédito, com condições muito mais facilitadas do que em bancos tradicionais, foi essencial para que o ecossistema produtivo ibiapabano desenvolvesse até mesmo tecnologias próprias para inovar nas produções.
“É um acesso rápido, sem burocracia e que auxilia na melhora da produtividade e na diversificação da atividade do produtor, melhorando o que se já faz ou beneficiando algo que o produtor já produz. Isso tudo eleva a renda do produtor”, observa.


Legenda: Tiago Rodrigues e Daniel Souza foram clientes do Agroamigo ao longo dos 20 anos do programa.
Foto: Fabiane de Paula.
“Outro ponto é que, com acesso ao crédito, o produtor pode fazer irrigação, exercer outras atividades menos dependentes da chuva. Grande parte desses agricultores desenvolvem atividades como a pecuária de pequeno porte, que tem uma entrega de renda maior”, frisa.
Créditos
Luciano Rodrigues, Repórter | Fabiane de Paula, Produtora Audiovisual | Louise Dutra, Artes e Diagramação | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Supervisores de Jornalismo | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte











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