Do estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro à lista de meninas “estupráveis” em uma escola de São Paulo, a urgência de educação de gênero nas escolas para tentar frear o machismo e a misoginia.

No início de março, o famigerado mês das mulheres, um estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro, chocava o País. A menina foi agredida por cinco rapazes, um adolescente e quatro com idades entre 18 e 19 anos no mês de janeiro, mas o caso só se tornou público somente meses depois.
Mais recentemente, na semana passada, veio à tona um grupo criado em um aplicativo de mensagens por alunos de uma escola de elite de São Paulo no qual eles elencavam as meninas “estupráveis”, segundo relato de uma das vítimas — a escola fala que o termo usado não era este, mas sim das “mais gostosas”.
Seja como for, os dois casos emblemáticos que tomaram a opinião pública neste mês das mulheres envolvendo adolescentes e jovens imersos em crimes e casos de machismo e misoginia revelam a urgência da necessidade de instituir educação de gênero nas escolas.
Veja também
É preciso que a sociedade escape das fake news plantadas pela extrema direita, como se educação sexual e de gênero nas escolas fossem uma forma de contrapor ao conservadorismo quando, na verdade, é fundamental para tentar barrar o machismo e misoginia que desembocam em crimes graves e violências várias contra as mulheres.
Os dois casos mencionados não estão relacionados, mas são exemplos fortes de como a juventude ainda age como se o corpo feminino pudesse ser transformado em objeto, alvo de dominação ou mesmo de disputa. Essas crenças não surgem nos aplicativos de mensagens, mas vêm de uma cultura machista e misógina presente no dia a dia do brasileiros, muitas vezes naturalizada pelos próprios políticos quando falam que uma deputada é feia demais para ser estuprada.
Veja também
Essa cultura está nas piadas aparentemente inofensivas sobre os corpos das mulheres, nas músicas que exalam misoginia, no argumento de que mulheres devem ganhar menos que homens por engravidarem e menstruarem. Quando o corpo da mulher vira objeto e é inferiorizado, abre-se espaço para o que aparentemente é apenas discurso virar crime. Perde-se a compreensão do que é consentimento e o respeito de que “não” só pode significar não, em qualquer momento.
É aí que a escola precisa entrar na conversa. Certamente não é ela que vai resolver o problema sozinha, mas pode ser uma aliada no processo. Precisamos transpor a batalha ideológica que entende a educação sexual e de gênero como doutrinação de crianças para educá-las em prol de um mundo mais igual. Que cresçam cientes do que significa consentimento e de que só as mulheres devem ter domínio e decidir sobre seus próprios corpos.
Que os casos absurdos deste mês de março possam deixar reflexão para a sociedade sobre a necessidade de ensinar convivência e de mostrar que as masculinidade não precisa se afirmar por meio da submissão feminina. Na escola, é possível garantir mediação para que, desde cedo, as crianças aprendam sobre diversidade, convivência, respeito e igualdade. Que, de lá, a gente comece a mover e superar o machismo e a misoginia.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.















Adcionar comentário