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Bebês reborn, maternidades simbólicas e solidão real: o que esse fenômeno diz sobre nós?

Maternidades exclusivas para bonecos, troca de fraldas e mamadeiras e até a disputa judicial de um casal pela guarda de um reborn têm dominado o noticiário brasileiro. O fenômeno dos bebês reborn — bonecos hiper-realistas tratados por muitos como filhos de verdade — vem despertando fascínio e controvérsia.
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Redação Extra

15/05/2025 09h32  Atualizado agora

Maternidades exclusivas para bonecos, troca de fraldas e mamadeiras e até a disputa judicial de um casal pela guarda de um reborn têm dominado o noticiário brasileiro. O fenômeno dos bebês reborn — bonecos hiper-realistas tratados por muitos como filhos de verdade — vem despertando fascínio e controvérsia.

Para a psicóloga Ludmilla Furtado, coordenadora e professora do curso de Psicologia da Uniabeu, a tendência exige uma escuta atenta e livre de julgamentos: a relação com esses bonecos pode refletir desde experiências simbólicas e estéticas até tentativas de preencher lacunas emocionais num cenário contemporâneo marcado por solidão, vínculos fragilizados e hiperconectividade. “É preciso compreender o contexto afetivo e social em que essas escolhas se dão”, alerta.

O PL 5357/2025, que institui a criação de um programa de saúde mental para pessoas que se demonstrarem vínculo paterno ou materno com os bonecos no território fluminense, foi encaminhado à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) nesta terça-feira.

O texto, de autoria do deputado estadual Rodrigo Amorim (União), prevê o desenvolvimento de ações de prevenção, acolhimento, orientação e acompanhamento dos ‘pais’ dos bonecos com o fim de prevenir “o adoecimento, a depressão e o suicídio”. Segundo a medida, os protocolos do programa vão ser criados por equipes formadas por psicólogos, terapeutas e assistentes sociais.

Na justificativa do projeto, Amorim afirma que os bebês reborn podem ser uma “ferramenta terapêutica valiosa”, mas ressalta que os bonecos “não podem ser um objeto que faça a pessoa fugir da realidade ou ainda criar uma dependência afetiva”.

Ainda que alguns casos possam sugerir uma tentativa de preencher lacunas emocionais, Ludmilla alerta para a multiplicidade de sentidos que esses bonecos podem ter. “Para algumas pessoas, os reborns são objetos de afeto, de memória, ou mesmo de expressão estética. Para outras, podem carregar simbolismos ligados a experiências de perda ou cuidado. Não há uma resposta única”, explica, acrescentando que a velocidade com que essa prática tem se espalhado não permitiu, até o momento, análises mais consistentes. “Não há consenso acadêmico que permita afirmar se há, de fato, uma tentativa inconsciente de reparação emocional”.

A linha que separa o simbólico do sintomático

Reportagens recentes têm chamado atenção para situações em que a relação com os reborns parece extrapolar o lúdico: mulheres que os levam para passear de carrinho, registram certidão de nascimento ou até os apresentam a amigos como filhos. Seria essa uma manifestação de sofrimento psíquico? Ludmilla recomenda cautela: “Até o momento, não há parâmetros clínicos validados que definam um ponto exato de transição entre o uso simbólico e um indicativo de sofrimento. Cada caso deve ser analisado à luz do contexto e da escuta individual.”

Para além da dimensão individual, a psicóloga convida a uma reflexão mais ampla sobre os modos de viver e se vincular na atualidade. “Vivemos em uma sociedade marcada pela solidão e por vínculos cada vez mais mediados pela tecnologia. Nesse cenário, o reborn pode ser visto como uma tentativa simbólica de resgatar o afeto, o controle ou até a previsibilidade diante da  necessidade  de reorganizar o mundo ao redor. Nesse contexto, objetos como os bebês reborn podem ser compreendidos de maneiras multifacetadas”, analisa Ludmilla.

Muito além da excentricidade

O fenômeno dos bebês reborn, embora cause perplexidade, pode ser revelador de uma série de questões contemporâneas — do luto ao afeto, da solidão ao desejo de controle. Para Ludmilla Furtado, a chave está na escuta atenta e livre de julgamentos. “É importante destacar o cuidado necessário para não incorrer em leituras apressadas ou reducionistas que ’psicologizem’ toda e qualquer manifestação subjetiva ou cultural. A tentativa de explicar esses comportamentos exclusivamente por categorias clínicas ou por pressupostos inconscientes pode obscurecer a complexidade do fenômeno, além de se correr o risco de patologizar experiências que, muitas vezes, são singulares, simbólicas ou culturalmente situadas”, conclui a especialista.

Os vereadores do Rio aprovaram no dia 7 de maio, em segunda discussão, o projeto de lei nº 1892/2023, que prevê a inclusão do Dia da Cegonha Reborn no calendário da cidade. De acordo com a justificativa da proposta, que aguarda aprovação ou veto do prefeito Eduardo Paes, o dia seria uma homenagem às artesãs que criam bonecos realistas de bebês, chamadas de Cegonhas.

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Carlos Alberto

Oi, eu sou o Carlos Alberto, radialista de Campos Sales-CE e apaixonado por futebol. Tenho qualidades, tenho defeitos (como todo mundo), mas no fim das contas, só quero viver, trabalhar, amar e o resto a gente inventa!

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