Dinâmicas nos municípios indicam como deve ser a composição das nominatas dos partidos nessas eleições.
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Ao menos oito prefeitas cearenses, representantes de 20% dos governos femininos no Estado, devem contar com um reforço familiar direto na disputa a cargos no Parlamento. Enquanto consolidam suas gestões e sustentam suas bases eleitorais, elas devem ter maridos ou filhos como pré-candidatos ao Congresso Nacional e à Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).
Com benefícios mútuos, a estratégia busca verticalizar e preservar o capital político das famílias nas eleições de 2026. É o caso de Acaraú, Apuiarés, Brejo Santo, Cascavel, Orós, Pacatuba, Paraipaba e Tauá, nos quais, de novatas a veteranas, as mulheres se tornaram peças centrais na estratégia eleitoral dos partidos.
Nesses contextos, para além do compartilhamento de práticas políticas e alianças estratégicas, a consolidação dessa cadeia de parentesco interessa às lideranças como forma de garantir um vínculo fiel com o eleitorado local.
Ao gerir um organismo com autonomia administrativa, o(a) prefeito(a) coordena uma rede de secretários, vereadores e representantes comunitários e se posiciona como um importante cabo eleitoral na “geografia do voto”.
Em contrapartida, com representantes na Alece e no Congresso, essas gestoras ampliam a capacidade de articulação de programas e recursos para os seus municípios, fator decisivo para a prestação de contas junto ao eleitorado e a outros atores políticos.
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Embora o apoio político não se restrinja a vínculos familiares – como mostram deputados com bases eleitorais que extrapolam relações de parentesco –, laços sanguíneos ou conjugais seguem como um dos mecanismos mais eficazes de fidelização eleitoral.
Há exceções à estratégia de permanência no cargo. Em Nova Russas, Giordanna Mano (PRD) renunciou à Prefeitura para disputar as eleições de 2026, sendo a única em todo o Ceará a fazer o movimento no período de desincompatibilização.
Giordanna governava a cidade desde 2021, quando assumiu cargo eletivo pela primeira vez. Na última semana, passou o bastão para o então vice-prefeito Anderson Pedrosa (PSB). Cabe destacar que o gestor é primo do antecessor da ex-prefeita, Rafael Pedrosa – uma trajetória típica de continuidade política local.
Agora, à frente da Federação Renovação Solidária (PRD/Solidariedade) no Ceará, Giordanna intensifica os trabalhos de articulações eleitorais. Ao lado do marido, o deputado federal Júnior Mano (PSB), ela busca fortalecer sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados.
Política familiar
Segundo a pesquisadora de organização partidária e exclusão política, Adriana Alcântara, essa prática ajuda a manter um sistema político quase hereditário, preservando o domínio de sobrenomes tradicionais que estendem sua força da esfera municipal para a estadual e federal.
“Você mantém o domínio e aquele sobrenome – que tem capital político e é atribuído, geralmente, ao homem. É como se eu, chefe político, quisesse estender a minha força por outros lugares. Então eu vou ser deputado e vou deixar a minha esposa ou a minha filha na prefeitura para que ela faça a gestão que eu quero. Aí estou assegurando a continuidade do meu nome e da minha política no município e no estado”, diz Alcântara.
A estratégia não é exclusiva das mulheres prefeitas, sendo também adotada por prefeitos que lançam esposas ou filhas na disputa eleitoral. É o que se observa, mirando o pleito de outubro, em grandes cidades, como Caucaia, Maracanaú e Juazeiro do Norte.
Além desse trio, o PontoPoder mapeou ao menos oito municípios com casos do tipo, representando cerca de 6% das cidades governadas por homens. Conclui-se, assim, que, embora não seja restrita às gestoras, a prática se mostra mais comum entre elas em 2026.
A dinâmica já rendeu seus frutos em eleições anteriores. Em 2022, por exemplo, a bancada cearense no Congresso contou com ao menos metade dos deputados (são 22 ao todo) e dois senadores com herança política familiar.
A configuração na Alece também foi impactada, com mais de 70% dos parlamentares eleitos com a ajuda do capital político sanguíneo-conjugal.
Permanência estratégica
As oito integram o grupo de 40 prefeitas em atividade atualmente no Ceará. Em 2024, 38 mulheres foram eleitas para chefiar o Poder Executivo municipal no Estado, um aumento de 26,6% em relação a 2020.
Desde o último pleito, houve, ainda, uma mudança na chapa em Orós, que levou Tereza Cristina (PSD) ao topo da gestão; e a vitória de mulheres nas eleições suplementares em Potiretama e em Senador Sá.
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A relação de prefeitas e municípios representados por familiares de primeiro grau nas eleições gerais pode aumentar até o período de convenções partidárias. Até o momento, oito casos foram mapeados.
A dinâmica normalmente alimenta uma rede de parentesco já estruturada, independentemente de a prefeita estar em seu primeiro mandato ou de o seu cônjuge ser estreante em disputas eletivas. É o caso de:
Ana Flávia Monteiro (PSB), prefeita de Acaraú
O marido da prefeita é o deputado federal Robério Monteiro (PSB), ex-secretário de Recursos Hídricos do Estado. Ele deixou a pasta para disputar as eleições deste ano.
Ana Rufino (PSB), prefeita de Apuiarés
O marido, Sérgio Rufino (PSB), ex-prefeito de Apuiarés e de Ipu, é cogitado como pré-candidato a deputado.
Ana Afif (PSB), prefeita de Cascavel
O marido, Gerônimo Munhoz (PSB), é pré-candidato a deputado estadual.
Patricia Aguiar (PSD), prefeita de Tauá
O marido é o ex-vice-governador Domingos Filho (PSD), que é cotado novamente para cargo majoritário, e os filhos são o deputado federal Domingos Neto (PSD) e Gabriella Aguiar (PSD), vice-prefeita de Fortaleza, que também são apostas para estas eleições.
Gislaine Landim (PSB), prefeita de Brejo Santo
O filho é o deputado estadual Guilherme Landim (PSB), ex-prefeito de Brejo Santo, que vai para a disputa proporcional neste ano.
Tereza Cristina (PSD), prefeita de Orós
Foi eleita vice-prefeita ao lado do filho, Simão Pedro (PSD), que renunciou ao Executivo para garantir presença na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). Ele deve concorrer à reeleição a deputado.
Larissa Camurça (PSD), prefeita de Pacatuba
O marido, deputado estadual Firmo Camurça (PSD), também é aposta para essas eleições.
Ariana Aquino (PP), prefeita de Paraipaba
O marido e ex-prefeito da cidade, Vicente Aquino (PDT), é pré-candidato a deputado federal.
As prefeitas e as bases
Apesar de parte das gestoras ter origem política ligada a uma figura masculina, como apontou Adriana Alcântara, muitas delas conseguiram se estabelecer na vida pública e garantir autonomia e longevidade nesses espaços. Exemplo disso é Patrícia Aguiar, que, em 2025, assumiu o seu quinto mandato como prefeita de Tauá, dando fôlego a uma família de capital político vindo do início da República.
Assim como Patrícia, a prefeita de Beberibe, Michele Queiroz (PSB), foi lançada candidata pelo marido, o ex-prefeito Daniel Queiroz, em 2012. Desde então, assumiu mais dois mandatos no governo municipal e a liderança de votos para a Alece na cidade, em 2022. Hoje, mesmo sem parentes diretos na disputa, Michele mantém alianças com parlamentares estaduais e federais, em uma lógica de apoio recíproco para viabilizar projetos administrativos e empreitadas eleitorais futuras.
O PontoPoder também buscou as oito prefeitas citadas inicialmente para detalhar sua participação nas eleições gerais de 2026 e o impacto das chamadas “dobradinhas” na articulação entre municípios e parlamentos estadual e federal.
As prefeitas de Acaraú, Apuiarés, Brejo Santo, Cascavel, Orós, Pacatuba, Paraipaba e Tauá também foram questionadas sobre a concentração de poder no Ceará. Até a publicação deste material, somente Ana Rufino e Tereza Cristina se pronunciaram.
Por meio de nota, a Ana Rufino se manifestou em defesa de “um mandato legítimo, conferido pela população”, e afirmou que permanece integralmente dedicada à gestão de Apuiarés. Ratificou, ainda, seu compromisso com “a responsabilidade institucional, a estabilidade política e o avanço do município”.
Ela preferiu não comentar diretamente as negociações relacionadas à pré-candidatura de Sérgio Rufino, já que “não participa dessas articulações”, ressaltando que o assunto deve ser tratado exclusivamente pela equipe dele. A reportagem buscou Sérgio Rufino, que disse não haver definição até o momento. “Estou nas tratativas com partido e liderança”, pontuou.
A gestora também é irmã de outro nome influente politicamente: o deputado estadual Cláudio Pinho (PSDB), que já foi prefeito de São Gonçalo do Amarante. Ele deve ser candidato à reeleição à Alece, seguindo estratégia do campo de oposição de fortalecimento da bancada.
Quanto a isso, Ana comentou como equilibra os pratos entre diferentes forças políticas em escala estadual, uma vez que integra a base do governador Elmano de Freitas (PT) e mantém uma “relação política e institucional pública, consolidada e respeitada” com o irmão.
“Essa relação com o município não é recente nem circunstancial. Cláudio Pinho mantém vínculo político e institucional com Apuiarés, e esse histórico também é reforçado pelo reconhecimento concedido a Anaracy Pinto Pinho Rufino no município. Soma-se a isso a trajetória pública de Barros Pinho, nome de relevância na política cearense, o que ajuda a explicar a solidez dessa ligação construída ao longo do tempo”, argumentou.
Quanto à questão da genealogia e concentração de poder, a prefeita de Orós argumentou que é um “avanço histórico ter mulheres ocupando um espaço que durante muito tempo foi ocupado apenas por homens”, embora entenda as críticas à herança político-familiar.
Tereza Cristina já havia ocupado a função, entre 1993 e 1996. Seu filho, Simão Pedro (2013-2020), e seu marido, Luiz Moreira Pequeno (1971-1973 e 1983-1988), também.
Já fui prefeita antes, em uma época em que ter uma mulher à frente de uma prefeitura era algo raro. No meu caso, sei que relações próximas podem abrir portas, mas estas portas só se mantêm abertas com trabalho e seriedade. O que posso dizer é que a minha gestão tem identidade própria. Tenho projetos, posições e prioridades que são minhas. Ser parente não me define como gestora. O que me define é o que eu entrego para Orós.
A respeito das eleições deste ano, ela indicou que terá participação ativa na campanha. “Estas eleições terão um peso importante para o nosso município. Orós precisa ter voz na Assembleia, bem como alguém que faça ponte entre o nosso município e as demais esferas da gestão. Por isso, terei uma participação ativa nas próximas eleições. Como conhecedoras das demandas do município, sei o quanto precisamos de pessoas comprometidas com Orós e com o nosso Estado”, disse.
Para ela, ter uma representação direta da cidade na Alece é fundamental para ter acesso a emendas e projetos e ainda ajuda na interlocução com o governo. “Um município pequeno como nosso depende muito desta ponte. Então, para nós se trata de reconhecimento”, complementou.








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