Letícia do Valeleticia.dovale@svm.com.br
27/05/2026 – 06:00
Símbolo da resistência no semiárido cearense, o jumento nordestino vendido informalmente no Ceará por valores entre R$ 1 e R$ 10 pode render até R$ 1.500 na China após ser processado para a extração de pele e colágeno para a indústria de cosméticos.
Apesar desse animal movimentar um mercado milionário na Ásia, o comércio da espécie não traz oportunidades viáveis e sustentáveis para o agronegócio local. Pelo contrário: a atividade ameaça a reputação do setor pela falta de rastreabilidade.
Na última quarta-feira (20), a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) aprovou a Sugestão Legislativa de proibir o abate de jumentos em todo o território nacional. Agora, de acordo com a Agência Senado, a SUG 9/2025 passará a tramitar como projeto de lei.
Como justificativa para a decisão, foi levantado não só o viés de proteção animal e o risco de extinção, mas também a necessidade de preservar a imagem do agronegócio brasileiro frente aos riscos sanitários promovidos pela forma informal como a atividade se dá no País.
Por que um produto tão lucrativo no exterior não representa negócio viável para o agro cearense?
De acordo com relatório da organização The Donkey Sanctuary, um estudo publicado pela Universidade de Reading sugere que um rebanho criado com 200.000 fêmeas de jumentos em condições altamente favoráveis levaria 15 anos ou mais para fornecer 1,2 milhões de peles. A demanda anual da indústria do ejiao, no entanto, é de, pelo menos, 5,9 milhões.
Conforme explica a coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary, Patrícia Tatemoto, a gestação da fêmea do animal dura cerca de 12 a 13 meses, e normalmente nasce apenas um filhote por vez. Já a maturidade reprodutiva e o desenvolvimento físico completo levam entre três a cinco anos para ocorrer.
“Na pecuária comercial, muitas fêmeas bovinas já entram em reprodução entre 14 e 24 meses, e a gestação das vacas dura cerca de 9 meses”, explica a especialista.

Legenda: Reprodução do jumento em comparação com a do porco.
Foto: Reuters via The Donkey Sanctuary.
Além disso, a espécie é altamente responsiva ao estresse, ao transporte prolongado e à superlotação, o que eleva o índice de abortos das fêmeas e morte dos animais, expõe a estudiosa.
“Isso significa que a velocidade de abate dos animais para atender à demanda industrial é muito maior do que a capacidade de reposição populacional da espécie. O jumento não pode ser comparado à lógica produtiva de aves, suínos ou bovinos. Tanto isso é verdade que nem a China tem conseguido atender à demanda”Patrícia Tatemoto
Coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary
De acordo com ela, no Brasil, a função do jumento sempre esteve mais ligada ao trabalho rural justamente porque a reprodução lenta inviabiliza economicamente um sistema industrial semelhante ao da pecuária convencional.
Paralelamente, Tatemoto lembra que a carcaça bovina possui rendimento e valor comercial muito superiores à do jumento, o que sustenta a viabilidade econômica da bovinocultura em escala.


Legenda: Jumentos foram historicamente usados no transporte de água, carga e deslocamento rural no Ceará
Foto: Antonio Carlos Alves.
Nesse contexto, o que resta é um comércio informal baseado, principalmente, na captura de animais abandonados.
“É exatamente por essa razão que nenhum grande grupo do agronegócio no Brasil se interessou em desenvolver uma cadeia formal de criação de jumentos até hoje. Em nenhum lugar do mundo a venda de peles de jumentos é economicamente viável diante da atual e crescente demanda do mercado de ejiao”, salienta.
A inviabilidade de um mercado estruturado também é apontada pela professora da pós-graduação em Ciência Animal da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Débora Façanha.
“Eu acho muito difícil alguém dizer: ‘Agora eu vou ser criador de jumento para vender para a China’. Até a pessoa juntar os animais, sistematizar o manejo… uma cadeia produtiva tem que ter regularidade na entrega. Então, ter essa regularidade, abastecer o mercado externo, eu acho que no momento é inviável. Dificilmente uma pessoa vai deixar de investir em gado, que já é um comércio certo, tanto pro exterior como para o mercado interno”Débora Façanha
Professora da pós-graduação em Ciência Animal da Ufersa
Questionada sobre o comércio relacionado à espécie no Estado, a Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE) informou que não existe trabalho comercial voltado para o animal.
“Não havendo esse tipo de atividade, consequentemente não existe um monitoramento, e tampouco temos ciência de empresários interessados em investir, pois sabemos que este tipo de atividade sempre foi tratada praticamente como informal”, destaca a nota enviada ao Diário do Nordeste.
A reportagem também procurou o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. Em caso de resposta, o conteúdo será atualizado.
Comercialização baseada em jumentos abandonados ameaça agronegócio brasileiro, diz especialista
Atualmente, a comercialização dos jumentos no Ceará é baseada na captura de animais abandonados ou na compra barata da espécie.
Segundo Patrícia, os bichos são reunidos em fazendas de espera e depois transportados até a Bahia, onde estão localizados os três frigoríficos brasileiros responsáveis pela exportação do produto para a China, nas cidades de Amargosa, Itapetinga e Simões Filho.
Com foco na pele, a carne acaba funcionando mais como subproduto, pouco ou nada aproveitada. Conforme relatório da The Donkey Sanctuary, durante o processo, os animais são privados de água, alimentação e cuidados veterinários. A estimativa da entidade é que 20% dos animais morrem no transporte por maus tratos.

Legenda: O abate do animal foi proibido em abril na Bahia.
Foto: Camila Lima.
“O problema é que há pouca transparência pública sobre a origem dos animais, volume abatido, condições sanitárias, rotas de transporte, rastreabilidade e descarte das carcaças. Hoje, nem mesmo existe um código aduaneiro específico para pele de jumento no Brasil, o que dificulta acompanhar o tamanho real dessa atividade”, pondera a estudiosa.
“A circulação de animais sem vigilância sanitária adequada fragiliza o controle sanitário brasileiro como um todo. Além disso, episódios recorrentes de abandono de carcaças e transporte inadequado geram preocupação ambiental e afetam a imagem internacional do agronegócio brasileiro. A atividade de comércio de peles de jumentos tem um risco reputacional enorme para o agronegócio brasileiro”Patrícia Tatemoto
Coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary
De acordo com a The Donkey Sanctuary, a inexistência da rastreabilidade da atividade carrega um risco sanitário que pode comprometer a reputação do agronegócio brasileiro e a economia do País, prejudicando as relações com outras nações. Isso porque a falta de uma origem segura para os animais aumenta o risco de disseminação de doenças entre equídeos, como o mormo, zoonose que apresenta letalidade de 95% para humanos.
Ceará já perdeu 72% da população de asininos
Devido ao abate predatório e à lenta reprodução, estudos apontam que o jumento nordestino pode entrar em extinção.
Segundo relatório da The Donkey Sanctuary, de 2024, a demanda mundial por pele de jumentos cresceu 160% de 2016 a 2021. Além disso, a organização estima que pelo menos 5,9 milhões de jumentos são abatidos globalmente todos os anos para abastecer o mercado chinês.
A previsão é que, em 2027, serão abatidos 6,8 milhões de animais em todo o mundo. Nacionalmente, a baixa na população do animal já supera 94%. De acordo com a organização, entre 1999 e 2025, o número de jumentos caiu de 1,37 milhão para 78 mil no País.
No Ceará, a redução também é significativa. O Estado é o segundo no ranking brasileiro de maiores populações de asininos em 2017, atrás somente da Bahia. Os dados são do Censo Agropecuário mais recente, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo os números, entre 1995 e 2017, a quantidade de cabeças de asininos saiu de 193.176 para 53.233 no Ceará. O percentual de queda ultrapassa 72%.
Ainda em 2017, o número de estabelecimentos com efetivo de asininos no Estado (36.961) representava pouco mais de 12% do total de estabelecimentos agropecuários cearenses (298.930).
“Mantido o ritmo atual de abate, existe risco real de desaparecimento populacional do jumento brasileiro nos próximos anos, sendo que, em 2030, se o abate não parar, não haverá mais animais”Patrícia Tatemoto
Coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary
Detran recolheu 549 asininos abandonados nas CEs entre janeiro e abril de 2026
Historicamente usado no transporte de água, carga e deslocamento rural, o jumento nordestino perdeu grande parte da função econômica tradicional nas últimas décadas devido à chegada de motos, tratores e veículos motorizados, aponta Patrícia.
Sem grande valor comercial, muitos desses animais passaram a ser abandonados e apareceram vagando nas estradas.
Conforme informado pelo Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE), foram recolhidos 549 asininos em situação de abandono nas margens das estradas cearenses (CEs) entre janeiro e abril deste ano. Segundo o órgão, os animais são encaminhados aos currais de apoio da entidade, em suas sedes regionais, e ficam aguardando a apresentação dos tutores por sete dias.

Legenda: Muitos desses animais passaram a ser abandonados.
Foto: Fabiane de Paula.
“Caso eles não se apresentem, os animais são encaminhados à fazenda do Detran, em Santa Quitéria, onde permanecem vivendo com toda a estrutura, tratamento e alimentação necessária”, complementou a pasta.
O Diário do Nordeste também questionou o Detran sobre o endereço das sedes regionais, o protocolo para o tutor resgatar o animal, a quantidade de animais vivendo na fazenda atualmente e o montante resgatado ao longo dos anos, mas não obteve respostas até o momento da publicação desta matéria. O espaço permanece aberto.
Como está essa discussão no Brasil e no mundo
No Ceará, começou a tramitar, em 2024, o projeto de lei PL Nº 391/2024, de autoria do deputado Renato Roseno (PSOL), que demanda a proibição do abate de jumentos no Estado. Atualmente, a medida ainda aguarda avanço na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece).
Já na Bahia, o abate do animal foi proibido em abril, após decisão da 1ª Vara Federal da Seção Judiciária do estado. Segundo publicado nas redes sociais pela Seção Judiciária da Bahia, a medida reconheceu a ocorrência de maus-tratos, transporte inadequado e risco à sobrevivência da espécie.
“Não podemos pensar em melhorar a regulação do abate mas, sim, aceitar a condição biológica da espécie, a fim de encerrar esse mercado sob o risco de desaparecimento da população brasileira de jumentos, riscos sanitários e reputacionais”Patrícia Tatemoto
Coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary
A proibição da atividade também é discutida em nível mundial. Segundo Patrícia, a União Africana (composta por 55 países) proibiu, em nível continental, o abate de jumentos para comércio de peles.


Legenda: A previsão é que, em 2027, serão abatidos 6,8 milhões de animais em todo o mundo.
Foto: Eduardo Aparício.
Valor ecológico, cultural e alternativas para a espécie
“O jumento foi o maior desenvolvimentista do sertão. Ele participou de várias construções de cidades e participa ainda hoje de cadeias produtivas. O jumento é muito territorialista e pode ser usado como guarda de rebanho. Tem também a zooterapia. O jumento, por ter um porte menor que um cavalo e ser um animal dócil, pode ser usado em terapias com crianças e pessoas autistas. Ele também é útil em colheitas, por acessar áreas que outros animais não têm habilidade para chegar”Débora Façanha
Professora da pós-graduação em Ciência Animal da Ufersa
Para a professora da Ufersa, Débora Façanha, antes do valor econômico, é preciso reconhecer o valor ecológico, histórico e cultural do jumento. Ela defende que seja feito um trabalho de conservação do animal nordestino, com estratégias de levantamento populacional e reinserção na sociedade.
Outra estratégia defendida por Débora é o reconhecimento racial do jumento nordestino, com estudos específicos para a catalogação e conservação desses animais.
“Essa raça ainda não é reconhecida pelo Ministério da Agricultura. Os criadores dão muito valor a animais que têm raça, que têm pedigree. O jumento nordestino é uma das raças, mas nós temos uma outra raça ali em Minas Gerais e em São Paulo, que é o jumento Pêga. Ele tem um valor altíssimo. Eles são de uma raça reconhecida e têm um pedigree”, aponta Débora.
Segundo o livro Biodiversidade dos Equídeos Iberoamericanos, da rede científica internacional Conservação da Biodiversidade dos Animais Domésticos Locais (Conbiand), o preço de um jumento da raça Pêga registrado varia de R$ 15.000 a mais de R$ 100.000, dependendo da genética, linhagem e idade.
Paralelamente, em relação à demanda do mercado chinês, Patrícia aponta que existem estudos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) voltados ao desenvolvimento de um colágeno de jumento feito em laboratório.
A pesquisa ainda está nos primeiros estágios, mas a The Donkey Sanctuary já estima um potencial de R$ 2 bilhões ao ano para o País a partir do produto.











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