Impulsionado pela tecnologia e exportações, setor expandiu 346% em dez anos, mas ainda enfrenta gargalos logísticos.
O estado do Ceará registrou um crescimento de 346% na produção de mel entre 2015 e 2024. O volume saltou de 1,36 milhão para 6,06 milhões de quilos, levando o estado da 8ª para a 6ª posição no ranking nacional.
Especialistas apontam que a combinação de tecnologia no campo, valorização do produto e o câmbio favorável às exportações impulsionaram o setor, embora ainda existam muitos desafios no setor. Além disso, uma das estratégias do setor é o mercado japonês.
Para o presidente da Federação Cearense de Apicultores (Fecap), Joventino Neto, a posição oficial do estado no ranking pode estar subestimada devido ao fato de que 80% da produção cearense é escoada através do Piauí, onde estão as principais casas de exportação.
“Eu acredito que o Ceará esteja entre o segundo ou terceiro maior produtor de mel do Brasil e não o sexto, como aponta a pesquisa”, afirma Neto.
Sobre o assunto, ele destaca ainda que “muitos apicultores ainda têm receio de registrar sua produção de forma oficial”, por conta da regularização de impostos e outras obrigações.
Os dados desta reportagem foram levantados pela equipe de Negócios do Diário do Nordeste e são da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Restrição da União Europeia e novos mercados
Embora a União Europeia (UE) tenha imposto restrições recentes ao mel brasileiro, que entrarão em vigor no próximo mês de setembro, o setor no Ceará ainda não é afetado diretamente em suas exportações, uma vez que o estado não realiza o despacho direto do produto.
A medida não se deve necessariamente a uma contaminação confirmada do produto, mas sim à incapacidade do Brasil em comprovar que atende às exigências sanitárias europeias.
Em termos de mercado, a meta dos apicultores cearenses, conforme o presidente da Fecap, é romper a dependência exclusiva da Europa e dos Estados Unidos, que atualmente exercem forte pressão sobre os preços.
“A estratégia agora foca na exploração de novos destinos internacionais, como o Japão, aproveitar o patamar favorável do dólar e a crescente demanda global pelo mel como um alimento preventivo e nutritivo”, diz Joventino.
Ele comenta ainda que essas medidas internacionais acabam sendo usadas por atravessadores para baixar os preços do produto e pressionar os produtores. E exemplifica que o quilo que estava sendo comprado do produtor por R$ 17, no início do ano, tem sido comercializado agora por R$ 12.
“Os atravessadores se aproveitam disso (restrição da UE) para botar o pé no pescoço do apicultor e querer comprar o suor dele por uma mixaria”, reforça o representante do setor.
Destaques regionais e o fenômeno Santana do Cariri
O município de Santana do Cariri lidera o cenário estadual, sendo responsável por 15,5% de toda a produção cearense, com 940 mil kg em 2024. Joventino Neto atribui o sucesso à organização local.
“Eles reconheceram que sem união, sem o cooperativismo, o associativismo presente, não se vai a lugar nenhum. Lá eles viram o valor do mel de aroeira, que já é conhecido mundialmente e se focaram nesse produto de forma conjunta”.
Outros crescimentos exponenciais foram registrados em Jaguaruana (+4.361%) e Palhano (+4.308%). Segundo Neto, a apicultura se provou muito mais rentável que a pecuária tradicional, o que despertou o interesse de produtores.
“Em 1 hectare, você coloca 1 boi ou 50 caixas (de abelhas). Cada caixa produz 30 kg por ano, ou seja, 1.500 kg. No preço atual, dá quase R$ 20 mil, enquanto o gado não dá isso”, exemplifica.
Economia e adaptação ao semiárido
O economista Franzé Tabosa explica que a atividade encontrou no Ceará um ambiente propício para expansão, especialmente em áreas onde outras culturas enfrentam dificuldades.
“A produção de mel se adaptou bem ao clima e vegetação do estado, principalmente nas regiões do semiárido”, pontua o economista, citando que regiões como os Inhamuns e o Cariri se tornaram polos de concentração.
Tabosa destaca que a rentabilidade tem sido o grande motor para os produtores.
“O dólar para exportação está fazendo real diferença”, explica, observando que o patamar da moeda em torno de R$ 5 favorece a balança comercial do setor agrícola cearense.
Além disso, o acesso a linhas de crédito como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) A e B e a assistência técnica da Ematerce (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará) foram fundamentais para esse salto.
Produção em queda em municípios tradicionais
Apesar do crescimento global apontado na PPM, 28 cidades cearenses registraram redução na produção. Casos de queda na produção em Guaramiranga (-99%) e Barbalha (-93%) acenderam um alerta na Federação. O presidente da Fecap diz que a pulverização aérea por drones tem afetado enxames.
“Estão jogando muito veneno e estão acabando com as abelhas. A pulverização (de defensivos agrícolas por drones) deve ser feita após as 18h, mas estão pulverizando durante o dia”, lamenta Joventino, explicando que a abelha infectada leva o veneno para a colmeia e contamina todo o enxame.
Já para o economista Franzé Tabosa, quedas em municípios como Camocim (-93%) e Canindé (-80%) podem estar ligadas a migrações econômicas para outros setores, como o turismo no litoral, ou falta de assistência específica.
O fim da dependência do Piauí
Atualmente, cerca de 80% da produção de mel do Ceará é enviada ao Piauí, onde o produto é processado para exportação. Como o Ceará ainda não possui entrepostos de exportação próprios, os produtores dependem de atravessadores piauienses que compram a matéria-prima e a despacham de volta para o Porto do Pecém.
Essa triangulação logística gera um custo elevado de frete — cerca de R$ 10 mil por transporte — e acaba por subestimar a real posição do Ceará no ranking nacional, já que o volume exportado é frequentemente registrado como produção do estado vizinho.
Assim, segundo Joventino, o próximo passo para a consolidação do setor é a criação de um entreposto próprio de vendas, em um terreno que será doado em Maracanaú.
A futura Centercop (Central de Cooperativas) pretende organizar a exportação direta do produto pelo Ceará, reduzindo custos logísticos.
“O Piauí paga R$ 10 mil de frete para levar o mel para o Porto do Pecém, enquanto o nosso terreno fica a 56 km do porto e o frete será de R$ 3 mil”, compara Joventino Neto, lembrando que isso torna o produto ainda mais competitivo.
A previsão é que a central comece a operar em 2025, transformando o estado de fornecedor de matéria-prima em um exportador direto.
Para além do mel orgânico e do mel de aroeira, que já possui reconhecimento mundial por suas propriedades benéficas, o setor cearense explora produtos de alto valor agregado como pólen, própolis, geleia real e a apitoxina — esta última destacada como um dos itens mais nobres e caros da cadeia produtiva.













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