Em maio de 2025, ela gerou 618 empregos formais. Em maio deste ano, ela demitiu 1.777 trabalhadores
Escrito por
Egídio Serpaegidio.serpa@svm.com.br
03 de Julho de 2026 – 06:00
Legenda: A indústria brasileira têxtil e de confecções enfrenta forte concorrência dos países asiáticos, principalmente da China
Foto: Divulgação
Um oferecimento de:
Atenção para os números a seguir, cuja fonte é o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged): em maio de 2025, a indústria brasileira têxtil e de confecções gerou 618 empregos formais, isto é, com carteira assinada, o que significa a garantia de todos os direitos trabalhistas, incluindo férias remuneradas e 13º salário. No mês de maio deste 2026, essa mesma indústria fechou 1.777 postos de trabalho formal, o que quer dizer a demissão de 1.777 de pessoas, cujas famílias agora enfrentam grandes dificuldades. O mês de maio é, segundo a CNI, o período durante o qual a indústria costuma contratar pessoal. Esta é a queda. Agora, vem o coice.
Atentem para estes números: de maio de 2025 a maio de 2026, o comércio varejista do país praticamente estagnou com uma queda de 0,2%. No mesmo período, porém, as importações de produtos de vestuários, oriundas principalmente da China, elevaram-se em 35,6%. Um detalhe crucial: as pequenas compras de valor até US$ 50 que o brasileiro faz e segue fazendo por meio das plataformas como a Shoppe aumentaram 52%, enquanto o valor delas registrou um incremento de 64%.
Esse cenário agravar-se-á com a decisão do governo do presidente Lula de zerar a alíquota do Imposto de Importação desses produtos (a chamada taxa das blusinhas). Consequência, a indústria têxtil e de confecções do Brasil, que já respira por aparelhos, perderá ainda mais o poder de competição com sua concorrente chinesa. Na China, o custo de produzir uma calça, uma blusa, um vestido ou uma camisa é muito mais baixo do que no Brasil, cujo modelo tributário e cuja legislação trabalhista são severos. É por isto que algumas empresas brasileiras se mudaram para o vizinho Paraguai, onde o empresário e sua empresa são muito bem tratados – sob todos os pontos de vista, incluindo o da tributação. E quem já está em Assunção ou nas demais cidades paraguaias manda dizer que lá as coisas vão indo muto bem.
O chamado Custo Brasil – do qual a insegurança jurídica é um dos itens mais importantes – atrasa, atrapalha, complica e torna mais difícil a vida da indústria nacional, principalmente a têxtil e de confecções. Um empresário cearense desse setor industrial mandou para esta coluna uma mensagem na qual afirma:
“Vivemos um momento de profundas transformações no comercio internacional. Países buscam mercado, a Ásia busca ampliar o escoamento de seus excedentes, e o Brasil corre o risco de acelerar a perda da densidade de sua indústria, a perda de mais empregos formais e de sua capacidade produtiva.
“É urgente avançar em uma agenda de elevação da produtividade: reduzir o Custo Brasil, começando pelos juros e pela carga tributária; fortalecer os instrumentos legítimos de defesa comercial e restabelecer o Imposto de Importação sobre as pequenas compras do estrangeiro”.
O diretor superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções, Fernando Valente Pimentel, reiterou à coluna sua opinião, segundo a qual o setor mantém mais de 1,3 milhão de empregos diretos, respondendo por cerca de 6% do PIB da indústria de transformação nacional.
“São números que revelam não apenas o seu peso econômico, mas também sua extraordinária capacidade de resistir, adaptar-se e se reinventar diante dos mais variados desafios. Crises globais, rupturas logísticas, transformações geopolíticas, mudanças nos padrões de consumo, aceleração digital, novas exigências regulatórias e uma concorrência internacional cada vez mais intensa marcaram os últimos anos. Poucos setores enfrentaram tantas pressões simultâneas e demonstraram tamanha resiliência.”
Essa indústria, empregadora intensiva de mão de obra, não pode perder, sob nenhuma hipótese, seu poder de competição, mas para isto terá de contar com a colaboração do governo, o que inclui, também, o Poder Judiciário, cujas decisões, em vez de criar dúvidas, devem garantir, pela segurança jurídica, um bom e atrativo ambiente de negócios, algo inexistente hoje no país, infelizmente.
Uma expressão latina diz que enquanto há vida, há esperança (“Dum spiro, spero”). E o povo mais esperançoso do mundo é o brasileiro, razão pela qual devemos todos continuar acreditando que o que está errado será consertado. Mas quando? Aí são outros quinhentos.











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