Grupo era mantido em condições precárias e era ameaçado para não denunciar.
Os 15 trabalhadores da construção civil resgatados em uma obra em Maranguape voltaram, na semana passada, para as cidades de origem, no estado do Maranhão. O retorno aconteceu após a empresa responsável por contratá-los, de forma terceirizada, custear translado, verbas rescisórias e salários atrasados.
O grupo foi resgatado na última terça-feira (21), na zona rural do município da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), a cerca de 3 km do Centro. Desde então, estava apreensivo para receber os débitos e ir para casa, rever os parentes.
“Nossa família fica perguntando: ‘Que dia vocês vêm? Já pagaram vocês?'”, contou um deles ao Diário do Nordeste após ser encontrado.
Submetidos a uma rotina de ameaças, longa jornada de trabalho, alimentação restrita e atraso ou até mesmo falta de pagamento, os operários relataram que se sentiam presos e humilhados enquanto eram coagidos a permanecer trabalhando apesar das condições precárias.
Um dos funcionários relatou que a família não sabia do paradeiro dele desde que teve o celular furtado do alojamento, que não tinha trancas. Como estava sem receber salário regularmente, não conseguiu comprar outro aparelho. “Estou sem me comunicar com ninguém.”
Grupo vivia sem água potável e com comida restrita
Os 15 maranhenses dividiam o mesmo imóvel (veja como era o local abaixo), sem cama, portas, água potável ou encanada, além de poucos móveis.
Na residência, para ter acesso à água para beber e tomar banho, eles dispunham somente de um reservatório sujo com resíduos de construção civil, localizado nos fundos da casa. Quando recebiam pagamento, compravam água potável, mas, na ausência de salário, acabavam tendo que saciar a sede com o líquido impróprio.
As condições do local surpreenderam os membros do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil da Região Metropolitana de Fortaleza (STICCRMF), que realizaram o resgate deles. “Encontraram um verdadeiro desastre. Era uma casa grande, sem ter nada dentro. Nem ventilador, nem água, nem portas. […] As redes e as mochilas deles no chão. Sem um bebedor, um fogão, uma panela”, afirmou o presidente da instituição, Nestor Bezerra.
O grupo gradualmente deixou o território maranhense — a maioria do município de Santa Helena, a mais de 150 km da capital São Luís — sob a promessa de emprego com carteira assinada para atuar na construção de um condomínio na zona rural de Maranguape.
Porém, ao desembarcar no Ceará, encontrou um serviço sem vínculo formal e terceirizado, intermediado por um empreiteiro com a empresa responsável pela obra.
Embora as condições fossem degradantes, os maranhenses permaneciam atuando na construção e residindo no alojamento, pois eram constantemente ameaçados pelo capataz, que os coagia a não procurar a polícia ou o Ministério do Trabalho, afirmando conhecer membros de uma facção criminosa que atua na região.
“Nós ‘tinha’ medo de ‘se espocar’ lá e ele mandar matar nós. Ali é perigoso”, detalhou uma das vítimas. O temor é reforçado por um dado recente: Maranguape foi a cidade mais violenta do País em 2025, conforme a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Esse foi o segundo ano consecutivo em que o município liderou a lista de 10 localidades com mais registros de assassinatos, por taxa de 100 mil habitantes.
Na manhã de 20 de julho, após uma falta coletiva ao canteiro de obras, devido a uma confraternização no dia anterior, a alimentação dos trabalhadores foi completamente suspensa pelo homem, que há cerca de três meses os tirou do refeitório da obra e passou a fornecer a alimentação deles na própria residência.
Sem dinheiro, os maranhenses ficaram com fome até serem resgatados na última terça-feira, após pedirem ajuda ao Sindicato. Após alimentá-los e acolhê-los, a instituição de classe deu início à mediação para garantir que a empresa Engeplan, responsável pela obra, arcasse com rescisões contratuais, pagamentos atrasados e passagens de retorno ao Maranhão.
Ao Diário do Nordeste, o empreendimento detalhou que quitou todos os débitos na última quinta-feira (23). A resolução do caso em cerca de 48 horas foi comemorada pelo advogado da entidade da categoria, Rafael Sales.
Atuo há 15 anos como advogado de sindicatos, e esse caso estará marcado na minha história. Que sirva de exemplo para que essas situações não virem rotina.”
Ainda no comunicado, a construtora esclareceu que, desde que tomou conhecimento do caso, notificou a empresa terceirizada para que apresentasse os devidos esclarecimentos e adotasse todas as medidas necessárias em relação às irregularidades apontadas.
“A Engeplan esclarece que contratou uma empresa terceirizada para a execução de serviços em seu canteiro de obras. O alojamento foi uma opção desta empresa. Já no âmbito do canteiro de obras, a construtora adota rigorosos protocolos de segurança, saúde e fiscalização das atividades, em conformidade com a legislação vigente e com os padrões exigidos”, disse em nota.
O caso foi registrado em um boletim de ocorrência (B.O.) na Delegacia de Polícia Civil de Maranguape. Anteriormente, a corporação detalhou que apura as circunstâncias da ocorrência.
O Setor de Fiscalização do Trabalho da SRTE-CE também informou que analisa a denúncia sobre a existência de trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão na Região Metropolitana de Fortaleza, e que adotará os procedimentos necessários para a apuração dos fatos.













Adcionar comentário