Nos primeiros cinco meses deste ano, 96 casos de violência intrafamiliar contra mulheres foram registrados no IJF, em Fortaleza.
Entre janeiro e maio deste ano, 96 mulheres deram entrada no Instituto Dr. José Frota (IJF), localizado em Fortaleza e considerado o maior hospital de trauma do Ceará, por ferimentos decorrentes de violência intrafamiliar – ou seja, agressões cometidas por pessoas próximas às vítimas, como cônjuges, namorados, ex-companheiros ou familiares.
O número, que assusta por si só, acende um alerta ainda maior quando comparado com os atendimentos registrados nos últimos três anos. Enquanto entre 2023 e 2025 a média mensal de vítimas de violência intrafamiliar atendidas no hospital variou entre 11 e 12, a média de 2026 já chega a 19. O aumento reflete uma onda de episódios graves de violência presenciados no Estado nos últimos meses.
Os números fazem parte de um levantamento feito pelo IJF após solicitação do Diário do Nordeste. Segundo os dados fornecidos pelo hospital, as vítimas mais frequentes são mulheres jovens, de 22 a 39 anos, e os principais agressores são cônjuges, namorados e ex-companheiros, que representam mais da metade dos casos.
Ao todo, entre janeiro de 2023 e maio deste ano, 525 mulheres foram internadas por violência intrafamiliar na unidade. Desses, 214 casos são reincidências.
Para a assistente social e coordenadora de Serviço Social do IJF, Pâmela Santos, o aumento dos registros também é fruto do aumento do número de denúncias e de um melhor atendimento institucional a mulheres vítimas de violência intrafamiliar.
“Elas estão denunciando mais, porque a gente está melhor organizado no fluxo”, aponta. Segundo ela, a organização de um protocolo próprio para atender as vítimas de violência doméstica e a melhor preparação dos profissionais de saúde reflete em uma maior confiança para que as denúncias sejam feitas.
“Mas a gente sabe que existe também a subnotificação. A mulher pode relatar que foi uma queda de escada, pode relatar que caiu, escorregou no banho e vai ocultar a informação”, completa.
Hospital conta com protocolo específico para acolhimento de vítimas
Desde agosto do ano passado, o IJF conta com um protocolo chamado Código Lilás, que atende a uma legislação nacional e busca identificar, acolher e encaminhar vítimas de violência intrafamiliar para a rede de proteção adequada.
Segundo o equipamento de saúde, o atendimento é feito de forma sigilosa e humanizada e busca garantir a segurança física, emocional e financeira da vítima durante a internação e após a saída do hospital.
De acordo com o IJF, o acolhimento na unidade inclui uma sala especial para receber as vítimas, denominada Sala Lilás, para atendimento psicossocial e a notificação do caso de violência à Guarda Municipal de Fortaleza (GMF), responsável por acionar a Delegacia de Defesa da Mulher.
“Quando uma mulher adentra a unidade de saúde e refere que essa agressão é ocasionada pelo seu companheiro, pelo seu cônjuge, ou foi por algum parente no contexto familiar – que também pode ser chamado de contexto intrafamiliar – é obrigação das unidades de saúde informar as autoridades policiais”, destaca a coordenadora.
A notificação ocorre assim que o caso de violência doméstica é identificado, seja pela própria vítima, por um familiar ou pela equipe médica, já que “o crime contra a mulher, nesse contexto, é uma ação pública incondicionada, ou seja, que precisa ser investigada para além do desejo da vítima”, completa Santos.
Após a desospitalização, ou seja, o fim do internação da vítima, o IJF também atua como ponte para encaminhar a vítima para serviços de apoio, como a Casa da Mulher Brasileira, o Centro de Referência da Mulher e os Centros de Referência Especializados da Assistência Social (Creas) de municípios do interior.
Em casos mais graves, o equipamento de saúde também é responsável por acionar o programa de proteção a mulheres vítimas de violência. “Isso tem muito a ver com as tentativas, sobretudo, de feminicídio, que é quando o objetivo é exterminar a vida daquela mulher”, pontua Pâmela.
Atenção à saúde mental e rede de apoio são fundamentais
Em casos de violência doméstica, o acolhimento muitas vezes começa apenas no hospital, após episódios mais graves, mas deve perdurar para muito além da internação para que a vítima possa se curar.
A psicóloga e professora universitária Juliana Murta destaca que esses casos podem trazer, além de lesões físicas, questões emocionais sérias, como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e “alterações gravíssimas” no sono.
“As mulheres tendem a ficar cada vez mais hipervigilantes, porque ninguém sabe como a agressão, sendo física ou não, vai vir. Além disso, há o [abuso de] uso de álcool e tentativas de suicídio”, explica.
“Esse desenvolvimento de ansiedade, depressão e outros sintomas vêm por esse processo de quebra de autonomia e de possibilidade de existência que essas mulheres vivenciam, à medida que passam por essas agressões”, completa.
Juliana ainda reforça que o impacto emocional das violências tende a ser maior em casos de vítimas que foram desacreditadas por familiares, amigos ou pelos próprios sistemas de saúde e de Justiça.
Em todos os casos, a psicóloga ressalta a importância de, para além do apoio institucional – médico, social e jurídico –, mulheres vítimas de violência doméstica poderem contar com uma rede de apoio fortalecida, presente e que compreenda a complexidade da violência intrafamiliar, especialmente quando ela parte de cônjuges, namorados ou ex-companheiros.
“Tem muitas famílias que são boas, que querem ajudar, que estão desesperadas para ajudar – mas, nesse desespero para ajudar, acabam afastando ainda mais essa mulher. Vem aquela coisa de ‘você precisa se divorciar’ ou ‘você precisa sair de casa’. Essa família está errada? Não está. Mas vai dar conta? Não vai, vai afastar ainda mais, porque vai aumentar o limiar de culpa daquela mulher, porque ela não se vê conseguindo fazer aquilo”, explica Juliana.
“Então, a rede de apoio tem um desafio muito grande, que machuca muito a própria rede de apoio também, que é conseguir ter paciência suficiente para não tentar tomar decisões por essa mulher. Ela precisa dizer: ‘Eu estou aqui, vou te proteger, mas a gente precisa fazer com que você fique viva’”, conclui.
Reincidência acende alerta no poder público, diz secretária
A secretária executiva de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da Secretaria das Mulheres do Ceará, Erica Praciano, destaca que os casos de violência intrafamiliar são um problema social complexo, “que exige toda a atuação permanente e integrada do poder público e da sociedade civil”.
Erica destaca que o fato de a maioria dos agressores de mulheres serem companheiros ou ex-companheiros das vítimas demonstra que existem ciclos de violência “marcados pelo controle, pelas ameaças, e até mesmo pelo fator que decorre da questão da dependência emocional e da dependência econômica em relação ao companheiro”.
“Esses casos de reincidência acendem um alerta muito importante para nós, do poder público. Eles mostram que não basta apenas interromper o episódio da violência, mas que é fundamental garantir toda a proteção contínua, todo o acompanhamento psicossocial, todo o acesso à Justiça e também a questão da autonomia econômica para as mulheres, que é justamente um dos motivos para que possa interromper esse ciclo de violência”, destaca a secretária executiva.
Segundo a gestora, o principal foco da Secretaria das Mulheres para reduzir os casos de violência intrafamiliar tem sido a ampliação da rede estadual de proteção às mulheres, especialmente com novas unidades da Casa da Mulher Brasileira e da Casa da Mulher Cearense, o fortalecimento das patrulhas Maria da Penha e campanhas permanentes de prevenção e conscientização.
Questionada sobre o crescimento na média mensal de mulheres atendidas por casos de violência intrafamiliar e o atual cenário da violência doméstica contra mulheres no Estado, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) afirmou que “realiza ações de combate, prevenção, reforço no policiamento e acolhimento às vítimas de violência doméstica” e que “as Forças de Segurança atuam diariamente para fortalecer a rede de atendimento, ampliar o acesso rápido aos serviços de proteção e o acompanhamento das vítimas”.
Entre as principais ações para auxiliar mulheres vítimas de violência estão o Grupo de Apoio às Vítimas de Violência (Gavv), ligado à Polícia Militar do Ceará (PMCE), e o sistema virtual de solicitação de medidas protetivas de urgência, disponível no site mulher.policiacivil.ce.gov.br.
SERVIÇO
ONDE BUSCAR AJUDA
Ligue 180 para denunciar situações de violência contra a mulher.
Disque 190 em casos de emergência.
Disque 100 – Violência contra crianças e adolescentes.
CASA DA MULHER BRASILEIRA
Fortaleza
Rua Teles de Sousa, s/n – Couto Fernandes
(85) 3108-2998 / 3108-2999 / 3108-2994 (administração)
casadamulherbrasileira@gabgov.ce.gov.br
CASA DA MULHER CEARENSE
Juazeiro do Norte
Av. Pe. Cícero, 4501 – São José
(88) 98128-8071 / (85) 3106-3145
casadamulhercearense.cariri@mulheres.ce.gov.br
Quixadá
Rua Luis Barbosa da Silva, s/n – Planalto Renascer
(88) 98957-2422 / (85) 3106-3202
casadamulhercearense.quixada@mulheres.ce.gov.br
Sobral
Av. Monsenhor Aloísio Pinho, s/n – Gerardo Cristino de Menezes
(88) 98959-7453 / (85) 3106-3185
casadamulhercearensesobral@gmail.com
Tauá
Rua Antônio Carvalho Citó, s/n – Planalto Nelândia













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