A rede de sensores que registra os tremores cresce todo ano.

O mundo parece estar passando por uma onda de terremotos este ano. Mas, afinal, o que os dados científicos dizem sobre isso? Só no mês de agosto, dois abalos ganharam destaque em pontos opostos do planeta.
Na madrugada de sábado (15), às 5h58 no horário local, a ilha de Flores, no leste da Indonésia, foi atingida por um terremoto de magnitude 7,7 medido pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS.
Enquanto na ilha já era o dia 15, no Brasil ainda corria a noite de sexta-feira (14), por volta das 18h58 em Brasília. Poucas horas depois, à 1h04 da madrugada de sábado (15) no horário de Madri, foi a vez de Granada, no sul da Espanha, com um abalo de magnitude 5,0.
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Esses dois números, o 7,7 da Indonésia e o 5,0 de Granada, já dizem muito, desde que a gente saiba lê-los. A grandeza de um terremoto é expressa pela magnitude, que estima a energia liberada quando as rochas se rompem nas profundezas.
Esse rompimento acontece sobretudo nas bordas das placas tectônicas, os grandes blocos de rocha em que a crosta da Terra se divide e que se movem lentamente, acumulando tensão ao longo de séculos até romper de uma só vez.
Durante décadas se falou na escala Richter, hoje trocada nos grandes eventos pela magnitude de momento, mais precisa para abalos fortes, ainda que o público siga chamando tudo de Richter.
O que muita gente não percebe é que essa escala cresce muito depressa. Um único ponto a mais representa um salto enorme de energia, a ponto de um terremoto de magnitude 7 liberar cerca de mil vezes mais energia que um de magnitude 5.
É por isso que os 7,7 da Indonésia e os 5,0 de Granada tiveram desfechos tão diferentes. Na Indonésia, o terremoto matou dezenas de pessoas e desalojou milhares. Em Granada, o susto se resumiu a rachaduras em paredes, alguns feridos leves e o fechamento temporário da Alhambra, o palácio que é o cartão-postal da cidade.
Os grandes terremotos de 2026
Flores e Granada não estiveram sozinhas. Ao longo de 2026, o planeta já registrou 11 terremotos de magnitude 7 ou mais, os de maior porte, que reúno a seguir na ordem em que ocorreram, com as datas em horário de Brasília e as magnitudes medidas pelo USGS:
- 24 de fevereiro, Malásia, na região de Sabah, magnitude 7,1
- 24 de março, Tonga, magnitude 7,5
- 30 de março, Vanuatu, magnitude 7,3
- 1º de abril, Indonésia, nas Molucas do Norte, magnitude 7,4
- 20 de abril, Japão, na costa de Iwate, magnitude 7,4
- 8 de junho, Filipinas, na ilha de Mindanao, magnitude 7,8
- 24 de junho, Venezuela, dois abalos com segundos de intervalo, magnitudes 7,2 e 7,5
- 17 de julho, México, na costa de Chiapas, magnitude 7,3
- 10 de agosto, Colômbia, no departamento de Chocó, magnitude 7,4
- 14 de agosto, Indonésia, na ilha de Flores, magnitude 7,7
Onze grandes abalos em pouco mais de sete meses assustam, mas cabem no ritmo normal do planeta. Os registros de mais de um século mostram uma média em torno de 15 terremotos de magnitude 7 ou mais por ano.
Mantido o passo atual, 2026 deve fechar um pouco acima dessa média, ainda dentro da variação de sempre.
Se o número é normal, por que a impressão é de aumento? Ela vem da nossa memória. A lembrança coletiva é curta, e os acontecimentos recentes ocupam quase todo o espaço que deveria ser dividido com os antigos. Um terremoto de ontem parece parte de uma onda, enquanto outro de dez anos atrás já foi esquecido.
Vale um exemplo que costuma surpreender. O ano mais movimentado de que se tem registro foi 2010, com 23 grandes terremotos, entre eles o que devastou o Haiti e deixou mais de lamentáveis 200 mil mortos.
Poucos hoje se recordam de 2010 como um ano fora do comum, e essa é justamente a prova de como a memória falha. Existe ainda um fator menor, de ordem técnica. A rede de sensores que registra os tremores cresce todo ano, o que faz o catálogo dos eventos pequenos engordar, sem que isso signifique uma Terra mais ativa.
Resta a pergunta que mais interessa a quem lê daqui. E o Brasil, corre algum risco? Pouco. O território inteiro repousa no interior da Placa Sul-Americana, longe das bordas onde a energia se concentra, o que mantém baixo o risco de um desastre sísmico em qualquer ponto do país.
Esse risco baixo, no entanto, não se distribui por igual entre as cinco regiões. A que mais sente esses abalos é o Nordeste, ao contrário do que a intuição sugere.
A explicação está na Província Borborema, o bloco de rochas que sustenta boa parte de Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, onde a crosta é mais fina e guarda falhas antigas que voltam a se mover.
Foi ali que ocorreram os tremores mais fortes já medidos na região: os 5,2 de Cascavel, no Ceará, em 1980, sentidos em Fortaleza e Natal; e os 5,1 de João Câmara, no Rio Grande do Norte, em 1986, que danificaram milhares de casas. Em uma coluna futura vou trazer mais detalhes sobre as possibilidades de terremotos no Estado do Ceará.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.













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