O aumento do sofrimento psíquico, da intolerância e da descrença nas instituições pode revelar um profundo mal-estar da civilização contemporânea.

Vivemos um tempo de paradoxos. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantos avanços científicos e tecnológicos e tantas possibilidades de comunicação. Ao mesmo tempo, cresce, em diferentes partes do mundo, uma sensação difusa de vazio, desesperança e perda de sentido da vida. Conectados por redes digitais, parecemos cada vez mais desconectados de nós mesmos, dos outros e do futuro.
Diante desse cenário, uma pergunta inquietante se impõe: estaria a humanidade vivendo uma forma de suicídio coletivo? Uma espécie de doença autoimune, em que nosso sistema imunológico, cujas células nos defendem de vírus e bactérias, não consegue mais distinguir as células saudáveis das células doentes e começa a atacar as células saudáveis? Não se consegue mais distinguir o bem do mal? Estaria a humanidade sofrendo de um câncer existencial?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 700 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no planeta. O suicídio está entre as principais causas de morte de jovens entre 15 e 29 anos. No Brasil, aproximadamente 14 mil vidas são perdidas anualmente.
Por trás dessas estatísticas, existem histórias interrompidas, famílias devastadas e sofrimentos que não encontraram acolhimento, escuta ou respostas. Aqui em Fortaleza, a morte daquela jovem universitária, Isabele, chocou toda a sociedade brasileira. Que forças ocultas são essas que ceifam vidas?
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O suicídio geralmente surge quando uma pessoa deixa de enxergar possibilidades diante de seus conflitos e dilemas. É uma resposta extrema para uma dor que parece insuportável. Entretanto, o sofrimento psíquico não é produzido apenas por fatores individuais. Ele também é consequência das relações sociais, das condições econômicas, da qualidade dos vínculos afetivos e da maneira como uma sociedade acolhe ou abandona seus membros.
Vivemos em uma sociedade marcada por impulsos destrutivos
Cabe perguntar, portanto, se o crescimento dos suicídios não seria também um sintoma de um mal-estar familiar e coletivo mais profundo, que desestrutura existências e toda a sociedade.
Vivemos em uma cultura marcada pela aceleração permanente. Somos constantemente estimulados a produzir mais, consumir mais, competir mais, aparecer mais e ganhar dinheiro. O valor das pessoas parece ser medido pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pelo desempenho profissional.
Aqueles que não conseguem acompanhar esse ritmo frequentemente se sentem inadequados, fracassados ou descartáveis. E terminam se desesperando, deixando para trás os valores que dão sustentação à convivência saudável com a família e a sociedade.
Vivemos numa época da cultura da exclusão e da negação do outro
Ao mesmo tempo, assistimos ao enfraquecimento de muitos espaços de convivência que, historicamente, ofereciam proteção emocional e sentido de pertencimento. Famílias, comunidades, vizinhanças, associações, sindicatos, movimentos sociais e até mesmo os laços familiares passam por profundas transformações. Muitas pessoas se sentem solitárias em meio à multidão. Na família, não se conversa mais. Cada um com seu celular na mão.
Talvez seja nessa combinação de individualismo, competitividade e isolamento que esteja uma das raízes do sofrimento contemporâneo, que leva as pessoas a se desagregarem e perderem o sentido da vida.
Observamos também, em várias partes do mundo, a expansão de discursos que transformam diferenças em ameaças, adversários em inimigos e vulnerabilidades humanas em justificativas para a exclusão. A intolerância ganha espaço no debate público, a agressividade substitui o diálogo e a empatia passa a ser vista, muitas vezes, como sinal de fraqueza.
As redes sociais, que poderiam aproximar, frequentemente amplificam a polarização, o ressentimento e a intolerância. Estes dias, as redes sociais mostraram aquela deputada de Santa Catarina comemorando os 450 mil votos que a elegeram, com uma coroa de vitória na cabeça e um chicote na mão, dando chicotadas como eram praticadas no tempo da escravidão.
Essa pessoa, essa política, pretende construir as leis que vão governar este país? Ela pretende governar a sociedade como se fosse uma senzala ou uma prisão de marginais? Meu Deus, quanta insanidade!
Os sinais de um adoecimento coletivo
A história mostra que nenhuma sociedade se fortalece quando transforma parte de seus membros em inimigos internos. Quando pobres, migrantes, minorias, povos indígenas, populações periféricas ou quaisquer grupos vulneráveis passam a ser vistos como obstáculos ao desenvolvimento, algo fundamental da condição humana é comprometido.
Uma sociedade saudável não é aquela onde todos pensam da mesma forma. É aquela capaz de conviver com diferenças sem transformar divergências em guerra permanente. A diversidade não é uma ameaça à civilização. Pelo contrário, ela constitui uma de suas maiores riquezas.
Talvez uma das manifestações mais preocupantes desse desencanto coletivo seja a crescente descrença na própria democracia. Milhões de pessoas já não acreditam que sua participação possa transformar a realidade. Sentem-se distantes das instituições e pouco representadas pelos sistemas políticos existentes.
A elevada abstenção eleitoral observada nos últimos pleitos brasileiros revela mais do que simples desinteresse. Foram mais de 35 milhões. Ela expressa cansaço, frustração e perda de confiança. Quando grandes parcelas da população deixam de acreditar que sua voz pode produzir mudanças, instala-se uma crise que vai além da política. Trata-se de uma crise de pertencimento, de propósito e de esperança. É uma espécie de morte lenta, de um tumor que ameaça vidas.
A democracia não morre apenas quando é atacada por seus adversários. Ela também se enfraquece quando seus próprios cidadãos deixam de acreditar em sua capacidade de promover mudanças e construir um futuro compartilhado.
Nesse contexto, torna-se inevitável recordar a reflexão de Sigmund Freud sobre o conflito permanente entre Eros e Tânatos, entre as forças que promovem a vida e aquelas que impulsionam a destruição. Embora formulada em outro contexto histórico, essa ideia permanece provocadora.
Será que estamos assistindo ao fortalecimento de impulsos destrutivos que se manifestam tanto nas relações pessoais quanto nas escolhas coletivas? Não seria um câncer social que está corroendo a esperança das futuras gerações?
A violência crescente, a banalização do sofrimento humano e a incapacidade de reconhecer o outro como semelhante parecem apontar nessa direção. Quando a dignidade humana perde valor, quando a crueldade se torna espetáculo e quando a exclusão passa a ser defendida como solução para problemas sociais complexos, algo essencial da nossa humanidade está sendo corroído. Essa reflexão possui também uma dimensão espiritual.
Se Cristo simboliza o amor ao próximo, a compaixão e o cuidado com os mais vulneráveis, talvez possamos compreender o “anticristo” não como uma figura específica, mas como toda prática individual ou coletiva que desumaniza pessoas e legitima a indiferença. Toda vez que um ser humano é reduzido à condição de objeto descartável, algo de nossa própria humanidade também é perdido.
E as igrejas têm um papel importante
As igrejas e comunidades religiosas possuem um papel fundamental nesse debate. Historicamente, muitas delas foram espaços de acolhimento, solidariedade e reconstrução da esperança. Em momentos de sofrimento coletivo, ajudaram a proteger pessoas excluídas, marginalizadas e vulneráveis. Na visita recente do Papa a Paris, vimos desfilar os santos que deram suas vidas para defender valores.
No entanto, também é legítimo questionar os riscos que surgem quando a fé é instrumentalizada para projetos de poder. Quando a busca por influência política, riqueza material ou crescimento institucional se torna mais importante do que o cuidado com as pessoas, a espiritualidade corre o risco de perder sua essência.
Talvez seja útil revisitar a parábola da ovelha perdida. Costuma-se dizer que o bom pastor abandona noventa e nove ovelhas para procurar uma que se extraviou. Mas é possível enxergar essa história sob outro ângulo.
Talvez aquela ovelha, que pulou a cerca, tenha sido justamente a única capaz de perceber que existiam pastagens mais verdes além dos limites estabelecidos. Ao encontrá-la, o pastor não apenas resgata uma ovelha; ele descobre novos caminhos para alimentar todo o rebanho.
Sob essa perspectiva, a ovelha desgarrada simboliza a coragem de questionar, transgredir e buscar novas possibilidades quando as estruturas existentes já não oferecem alimento suficiente para a vida. Os Evangelhos oferecem um critério simples e profundamente revolucionário: “Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber”. O centro da experiência espiritual não está na conquista de poder, mas na capacidade de servir, acolher e cuidar da vida.
Talvez este seja um dos grandes desafios do nosso tempo: reconstruir uma ética do cuidado em uma cultura que valoriza excessivamente a competição. Precisamos reaprender a escutar, dialogar e reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana.
O suicídio individual é uma tragédia. Mas também devemos refletir sobre os comportamentos coletivos que produzem exclusão, isolamento, desesperança e destruição. Uma sociedade que abandona seus jovens, despreza seus idosos, naturaliza a pobreza e transforma adversários em inimigos caminha perigosamente para formas sutis de autodestruição. De um câncer fulminante que ceifa vidas.
Apesar das sombras do presente, há razões para a esperança. Crises também podem ser oportunidades de transformação. Em muitas comunidades, iniciativas solidárias, redes de apoio, movimentos sociais e experiências de cuidado coletivo continuam demonstrando que outras formas de convivência são possíveis.
Se o suicídio representa a perda da esperança individual, o antídoto para qualquer forma de suicídio coletivo continua sendo o mesmo: reconstruir vínculos, fortalecer comunidades e recuperar nossa capacidade de reconhecer no outro um semelhante. Filhos do mesmo Pai, criador do universo.
O futuro da humanidade talvez dependa menos dos avanços tecnológicos que produzimos e mais da capacidade de preservar aquilo que nos torna humanos: a solidariedade, a compaixão e o cuidado com a vida.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.













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