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Violência doméstica: 76% das mulheres atendidas no IJF foram agredidas por companheiros ou ex

Namorados, cônjuges e ex-parceiros são os agressores mais frequentes das vítimas.

Namorados, cônjuges e ex-parceiros são os agressores mais frequentes das vítimas.

Escrito porAna Beatriz Caldasbeatriz.caldas@svm.com.br
09 de Julho de 2026 – 06:00
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Legenda: Dados consideram atendimentos no IJF entre janeiro de 2023 e maio deste ano.
Foto: Fabiane de Paula.

Quase 80% dos agressores de mulheres que sofreram violência doméstica e foram atendidas pelo Instituto Dr. José Frota (IJF), maior hospital de trauma do Ceará, são namorados, cônjuges ou ex-companheiros das vítimas.

O índice considera como agressores homens e mulheres envolvidos afetivamente com as pacientes, mas a disparidade entre os gêneros é alta: nesse recorte, 96,6% dos agressores são homens, enquanto apenas 3,4% são mulheres.

Os dados fazem parte de um levantamento feito pelo IJF após solicitação do Diário do Nordeste e se referem a atendimentos realizados entre janeiro de 2023 e maio deste ano. Ao todo, nesse período, 525 mulheres foram internadas por violência intrafamiliar na unidade. Desses, 214 casos são reincidências – cerca de 40% do total.

 

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Segundo os dados fornecidos pelo hospital, as vítimas mais frequentes são mulheres jovens, de 22 a 39 anos. Os primeiros cinco meses deste ano demonstram um aumento na média mensal de atendimentos no local – enquanto entre 2023 e 2025 ela variou entre 11 e 12, a média de atendimentos a vítimas em 2026 já chega a 19 por mês.

 

Além de cônjuges, namorados e ex-companheiros, os agressores com registros mais frequentes são filhos e irmãos.

 

Para a assistente social e coordenadora de Serviço Social do IJF, Pâmela Santos, o aumento dos registros também é fruto do aumento do número de denúncias e de um melhor atendimento institucional a mulheres vítimas de violência intrafamiliar.

A coordenadora destaca, no entanto, que ainda existe um alto índice de subnotificação em casos de violência, já que muitas vítimas temem denunciar seus agressores.

 

 

A psicóloga e professora universitária Juliana Murta destaca que ainda hoje, em muitos casos, a violência de gênero chega ao hospital “disfarçada” de acidente antes de chegar às lesões mais sérias.

“É muito comum, antes de uma mulher chegar de fato relatando que foi agredida por um marido ou ex-marido, ela dar entrada em emergências hospitalares frequentemente porque ‘caiu da escada’, ‘bateu na porta’ ou ‘tropeçou e se machucou’”, pontua a professora.

Por isso, Juliana destaca a importância da conscientização, desde cedo, sobre as medidas que protegem mulheres vítimas de violência. “A gente tem a Lei Maria da Penha, que muita gente conhece, mas não sabe de fato do que se trata”, lamenta a psicóloga, que reforça que o impasse, muitas vezes, é também institucional.

 

 

“O que temos, muitas vezes, são mulheres chegando nos equipamentos para solicitar uma medida protetiva ou fazer uma denúncia e encontrando a relação de poder machista, patriarcal e violenta dentro do próprio equipamento também.”.

“Em termos de lei, a gente tem abrigos, a gente tem alternativas para mitigar – pelo menos naquele primeiro momento –, mas será que a informação chega nessas mulheres? Será que ela sabe que, se o agressor está em casa, ela pode solicitar força policial para buscar suas coisas em casa? E que, teoricamente, esse homem tem que se retirar da casa?”, questiona a psicóloga.

“Isso volta para uma questão de educação. Nossas meninas deveriam estar falando sobre isso, deveriam receber as informações que a gente tem sobre isso”, conclui.

Lesões mais frequentes buscam ‘desfigurar’ vítimas

 

IJF atende apenas traumas graves, como lesões por arma branca e de fogo e queimaduras.

Legenda: IJF atende apenas traumas graves, como lesões por arma branca e de fogo e queimaduras.
Foto: Ismael Soares.

 

Por ser um hospital de alta complexidade, o IJF recebe apenas pacientes com casos mais graves, o que faz com que muitas vítimas de violência doméstica sejam atendidas em outros equipamentos de saúde do Estado.

Por isso, os registros do hospital revelam a face mais brutal da violência de gênero, com agressões físicas muitas vezes fatais.

De acordo com a instituição, as lesões mais frequentes nas vítimas de violência intrafamiliar são traumas de face, traumatismo cranioencefálico, trauma abdominal, queimaduras e lesões cortocontusas, que costumam exigir acompanhamento especializado e multiprofissional.

Segundo Pâmela Santos, além das vítimas contabilizadas por violência intrafamiliar, outros casos que chegam ao hospital – e que não foram incluídos no levantamento – também estão associados à violência contra a mulher.

“Você vê inúmeros casos de mulheres que estavam fugindo de um estupro e foram atropeladas”, conta a assistente social. “Em outro caso, uma mulher, fugindo da situação de violência, pegou a moto no desespero, na velocidade, e se acidentou”, completa.

Casos complexos, que incluem a privação de liberdade das mulheres e até vítimas enterradas vivas, demonstram a motivação misógina dos atos de violência e o “ímpeto de acabar com a vida daquela mulher, pelo crime de ódio à mulher, pela misoginia, pelo machismo, pela violência em si, de gênero, que é estruturante na nossa sociedade”, destaca Pâmela.

A psicóloga Juliana Murta relembra que, no caso de companheiros e ex-companheiros, as agressões costumam partir de um sentimento de posse em relação às mulheres. “Parece absurdo, mas a gente escuta muito desses agressores: ‘se ela não vai ser minha, não vai ser de ninguém’”, destaca.

Para Juliana, muito antes da violência física, vem uma tentativa de apagamento que inclui isolar a mulher de amigos e familiares e retirá-la do ambiente de trabalho fora de casa.

 

“Tudo aquilo que fale de uma individualidade, de uma autonomia, é apagado aos poucos”, explica a psicóloga.

 

Essa escalada de violência também costuma estar diretamente relacionada com as lesões que buscam retirar das mulheres sua identidade. “Dentro desse ciclo, dentro dessa escala de violência, quando a gente chega no ápice, é uma violência que faz com que aquela mulher não seja mais nem reconhecida. Por isso, quando a gente pega os dados, tem tanta agressão física que termina com um rosto sendo desfigurado”, explica Juliana.

“E quando a gente pensa em mulheres trans – que são mulheres que por muitas vezes não são vistas ou reconhecidas como mulheres –, então [o agressor pensa] ‘eu vou atacar aquilo que faz com que ela exista, eu vou tentar atacar todas as características que fazem com que aquela mulher não pareça mais uma mulher. E aí a gente volta para uma questão estrutural: tudo aquilo que é feminino é odiado”, aponta Murta.

Reincidência acende alerta no poder público, diz secretária

A secretária executiva de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da Secretaria das Mulheres do Ceará, Erica Praciano, destaca que os casos de violência doméstica são um problema social complexo, “que exige toda a atuação permanente e integrada do poder público e da sociedade civil”.

A gestora destaca que o fato de a maioria dos agressores de mulheres serem companheiros ou ex-companheiros das vítimas demonstra que existem ciclos de violência “marcados pelo controle, pelas ameaças, e até mesmo pelo fator que decorre da questão da dependência emocional e da dependência econômica em relação ao companheiro”.

Segundo Erica, o principal foco da Secretaria das Mulheres para reduzir os casos de violência intrafamiliar tem sido a ampliação da rede estadual de proteção às mulheres, especialmente com novas unidades da Casa da Mulher Brasileira e da Casa da Mulher Cearense, o fortalecimento das patrulhas Maria da Penha e campanhas permanentes de prevenção e conscientização.

Questionada sobre o crescimento na média mensal de mulheres atendidas por casos de violência intrafamiliar e o atual cenário da violência doméstica contra mulheres no Estado, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) afirmou que “realiza ações de combate, prevenção, reforço no policiamento e acolhimento às vítimas de violência doméstica”.

Além disso, declarou que “as Forças de Segurança atuam diariamente para fortalecer a rede de atendimento, ampliar o acesso rápido aos serviços de proteção e o acompanhamento das vítimas”.

Entre as principais ações para auxiliar mulheres vítimas de violência estão o Grupo de Apoio às Vítimas de Violência (Gavv), ligado à Polícia Militar do Ceará (PMCE), e o sistema virtual de solicitação de medidas protetivas de urgência, disponível no site mulher.policiacivil.ce.gov.br.

SERVIÇO 

ONDE BUSCAR AJUDA
Ligue 180 para denunciar situações de violência contra a mulher.
Disque 190 em casos de emergência.
Disque 100 para casos de violência contra crianças e adolescentes.

CASA DA MULHER BRASILEIRA 

Fortaleza
Rua Teles de Sousa, s/n – Couto Fernandes
(85) 3108-2998 / 3108-2999 / 3108-2994 (administração)
casadamulherbrasileira@gabgov.ce.gov.br

CASA DA MULHER CEARENSE

Juazeiro do Norte
Av. Pe. Cícero, 4501 – São José
(88) 98128-8071 / (85) 3106-3145
casadamulhercearense.cariri@mulheres.ce.gov.br

Quixadá
Rua Luis Barbosa da Silva, s/n – Planalto Renascer
(88) 98957-2422 / (85) 3106-3202
casadamulhercearense.quixada@mulheres.ce.gov.br

Sobral
Av. Monsenhor Aloísio Pinho, s/n – Gerardo Cristino de Menezes
(88) 98959-7453 / (85) 3106-3185
casadamulhercearensesobral@gmail.com

Tauá
Rua Antônio Carvalho Citó, s/n – Planalto Nelândia

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Carlos Alberto

Oi, eu sou o Carlos Alberto, radialista de Campos Sales-CE e apaixonado por futebol. Tenho qualidades, tenho defeitos (como todo mundo), mas no fim das contas, só quero viver, trabalhar, amar e o resto a gente inventa!

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