Sem honestidade e com mentiras, o sucesso perde sentido, a política vira trampolim e o país se desorienta
Escrito por
Adalberto Barretoceara@svm.con.br
25 de Junho de 2026 – 06:20
(Atualizado às 06:45)
Legenda: Em tempos de pressa e esperteza, a honestidade talvez seja o gesto mais silencioso e mais corajoso de resistência.
Foto: Pexels/ Sultan Raimosan
Vivemos em um tempo que idolatra a velocidade. Tudo precisa ser rápido: o emagrecimento, a ascensão profissional, o enriquecimento, a aprovação em exames, a conquista de reconhecimento social. A lógica do imediato se infiltrou no cotidiano de tal maneira que o esforço passou a ser visto, muitas vezes, como atraso, e não como parte indispensável de qualquer conquista legítima.
No Brasil, esse fenômeno encontra terreno fértil em desigualdades históricas, em uma cultura que por vezes romantiza a esperteza e em um ambiente digital que transforma promessas fáceis em mercadoria cotidiana. O que antes aparecia como exceção moral passou a circular com verniz de normalidade: fórmulas milagrosas para o corpo, caminhos artificiais para certificados, esquemas para burlar concursos, golpes travestidos de oportunidade.
No entanto, entre o desejo e a realização existe um percurso que não pode ser simplesmente apagado sem custo. Quando uma sociedade começa a tratar o caminho como obstáculo e não como parte do valor da chegada, ela naturaliza atalhos que comprometem a saúde individual e coletiva, corroem a ética e enfraquecem a confiança.
O resultado não é eficiência, mas deterioração. E essa deterioração se torna mais perigosa quando deixa de ser percebida como desvio e passa a ser aceita como método.
O corpo e a promessa do resultado imediato
A tentação do atalho não é nova, mas ganhou novas formas e uma aparência de legitimidade. No campo do corpo e da aparência, por exemplo, cresce a promessa de resultados imediatos: músculos sem disciplina, emagrecimento sem reeducação alimentar, desempenho sem processo.
No Brasil, essa pressão é amplificada pelas redes sociais, por um mercado agressivo de soluções instantâneas e por padrões estéticos que transformam o corpo em vitrine permanente. Reportagens recentes apontaram crescimento expressivo na venda de anabolizantes no país e alertas médicos sobre complicações cardíacas, hormonais e hepáticas associadas ao uso indiscriminado dessas substâncias.
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Também se multiplicam os casos de produtos clandestinos vendidos pela internet, sem controle sanitário, explorando justamente a ansiedade por transformação rápida sem o devido esforço. O problema é que, quando a estética se sobrepõe ao cuidado, o preço costuma ser alto. O uso irresponsável de substâncias para acelerar resultados físicos, assim como intervenções buscadas como solução mágica para problemas complexos, expressa uma mentalidade perigosa: a de que o corpo é apenas um objeto a ser corrigido rapidamente, e não uma realidade viva que exige tempo, equilíbrio e responsabilidade.
Não se trata de condenar procedimentos médicos necessários nem de demonizar o desejo de melhorar a aparência. Trata-se de questionar a cultura que transforma recursos sérios em substitutos da mudança de hábitos e do autocuidado consistente.
Em uma sociedade marcada por forte desigualdade simbólica e material, vender atalhos corporais é também explorar inseguranças profundas. Por isso, o debate não pode ser apenas médico; ele é social, educacional e ético.
Fraudes contra a educação e o trabalho
No campo educacional e profissional, os atalhos são ainda mais corrosivos porque atingem diretamente o mérito e a confiança social. Comprar diplomas, fraudar concursos, obter habilitações falsas ou tentar ocupar posições sem a formação necessária não são apenas desvios individuais: são agressões ao pacto mínimo que sustenta a vida em sociedade.
E o Brasil tem visto exemplos eloquentes disso. Em 2025, operações policiais e reportagens nacionais expuseram esquemas de falsificação de diplomas de ensino superior usados para obter registros em conselhos profissionais e exercer ilegalmente atividades em áreas sensíveis, como saúde, engenharia e direito.
No mesmo período, vieram à tona investigações sobre fraudes em concursos públicos, envolvendo venda de gabaritos, uso de pontos eletrônicos e manipulação de resultados. Esses episódios não são anedotas marginais.Eles revelam uma disposição social perigosa: a de tratar a qualificação como uma formalidade dispensável e o acesso a cargos públicos ou profissões regulamentadas como prêmio negociável.
Quando alguém simula competência para ocupar um lugar que exige preparo real, coloca outras pessoas em risco, enfraquece instituições e transmite uma mensagem devastadora: a de que estudar, treinar e se qualificar seria perda de tempo para quem consegue “burlar o sistema”.
Em um país em que milhões de jovens enxergam na educação uma das poucas pontes concretas de mobilidade social, normalizar esse tipo de fraude é particularmente cruel. Significa roubar não apenas vagas ou certificados, mas o sentido moral do esforço honesto. E uma nação que perde a fé no mérito legítimo abre espaço para o cinismo, para o desalento e para a desistência coletiva.
A vantagem ilícita e a corrosão da vida pública
Há ainda um tipo de atalho socialmente devastador: o enriquecimento sem trabalho digno, obtido por meio do roubo, da corrupção ou de outras formas de fraude. Nesse caso, o problema ultrapassa a esfera privada e se transforma em sofrimento coletivo. Recursos desviados significam serviços públicos piores, oportunidades negadas, desigualdades ampliadas e cinismo moral disseminado.
O debate brasileiro recente mostra que a corrupção continua sendo um fator central de desgaste institucional, ainda que conviva com avanços pontuais em governança e transparência. Relatórios divulgados em 2026 indicaram que o país segue em patamar preocupante na percepção de corrupção, ao mesmo tempo em que pesquisas também registraram recuperação de confiança em certos serviços públicos e instituições.
Essa combinação é reveladora: a confiança pode crescer quando há entrega e integridade, mas permanece frágil quando escândalos sucessivos reforçam a sensação de impunidade e captura do Estado por interesses privados. Em ambientes marcados por corrupção e esperteza institucionalizada, o cidadão correto passa a se sentir ingênuo, enquanto o oportunista é tratado como inteligente.
Esse é um dos efeitos mais perversos da cultura do menor esforço: ela não apenas premia o desvio, como ridiculariza a integridade.
No Brasil, essa lógica se mistura ao velho “jeitinho”, que, em sua face criativa, pode representar adaptação, mas, em sua face moralmente degenerada, serve para relativizar regras, minimizar fraudes e elogiar quem leva vantagem. O problema é que nenhuma sociedade se sustenta quando a transgressão vira sinal de prestígio.
Uma democracia depende de confiança mínima nas instituições, e essa confiança não resiste por muito tempo quando o cidadão percebe que alguns trabalham, estudam e cumprem regras, enquanto outros compram resultados, fraudam percursos e ainda são celebrados por isso.
Reconstruir o valor da honestidade
Legenda: O verdadeiro progresso não está em encurtar o esforço a qualquer preço, mas em construir uma cultura em que o sucesso valha justamente porque foi alcançado de forma digna.
Foto: Pexels/Pedro Rebelo Pereira
Por isso, enfrentar a cultura dos atalhos exige mais do que reprovação moral ocasional; exige formação de consciência, exemplo público e compromisso coletivo.
No plano individual, é necessário recuperar o valor do esforço, compreendendo que disciplina, trabalho, estudo, treino, paciência e constância são caminhos de amadurecimento. As urnas são uma boa ocasião para punir, pelo voto, políticos espertos. Faça do seu voto um instrumento poderoso para corrigir os rumos que nos conduzem à prosperidade coletiva.
No plano social, cabe à família, à escola, às instituições e aos meios de comunicação reafirmar que não existe conquista sólida separada da responsabilidade. Isso significa educar para a ética desde cedo, valorizar trajetórias honestas em vez de apenas resultados chamativos e recusar a glamourização da vantagem fácil, tão presente em parte da cultura digital e política contemporânea.
No plano institucional, também é necessário que o poder público atue com firmeza para coibir fraudes, proteger a ética nas relações profissionais, educacionais, econômicas e políticas e punir com efetividade quem transforma o engano e o roubo em estratégia de ascensão. No caso brasileiro, esse esforço passa por fiscalização séria, transparência institucional, fortalecimento dos mecanismos de controle e investimento em políticas que reduzam a sensação de que o caminho regular é sempre mais lento, mais caro e menos recompensador para os honestos.
O verdadeiro progresso não está em encurtar o esforço a qualquer preço, mas em construir uma cultura em que o sucesso valha justamente porque foi alcançado de forma digna.
A sociedade que aprende isso protege a saúde, fortalece a moral pública e devolve sentido ao mérito. A que ignora essa lição corre o risco de se tornar rápida demais para permanecer humana. Em tempos de pressa e esperteza, a honestidade talvez seja o gesto mais silencioso e mais corajoso de resistência.
Fica, portanto, um apelo: diante dos escândalos envolvendo políticos desonestos, não permita que o desânimo se transforme em descrença ou omissão. Que cada episódio sirva como convite à responsabilidade cidadã, para que você contribua com as correções necessárias por meio de um voto consciente, ético e comprometido com o bem comum.











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